lucky jetpinuppin upmostbet
Reportagens

Legislação avança, mas fim dos testes em animais ainda não é realidade no Brasil

Uso de animais em atividades didáticas e pesquisas em Universidades é um dos entraves

Reportagem por Raissa Hübner

A campanha #SaveRalph da Humane Society International aborda a crueldade dos testes em animais em um curta-metragem, que utiliza a história do coelho Ralph para chamar a atenção para o sofrimento animal nos laboratórios. Foto: Reprodução/YouTube/Humane World for Animals

Doze anos atrás, o país acompanhava pela televisão o resgate de 178 cães beagles do Instituto Royal, em São Roque (SP), após denúncias de maus-tratos. Além deles, sete coelhos e 200 camundongos foram retirados do local. A cena, que marcou o debate público sobre o uso de cobaias em experimentos, mobilizou entidades de proteção animal e impulsionou, ainda em 2013, a tramitação de um projeto de lei que só seria aprovado mais de uma década depois.

O desfecho desse movimento veio em 30 de julho de 2025, quando o presidente Lula sancionou a Lei nº 15.183/2025, que proíbe o uso de animais em testes de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes. “A gente conseguiu sancionar uma lei que defende a soberania animal”, declarou o presidente em cerimônia no Palácio do Planalto. “As criaturas de Deus, que têm como habitat natural o planeta Terra, não vão ser mais cobaias de experiências neste país.” O discurso simbolizou o que parecia ser o fim de uma longa disputa, mas, na prática, o tema continua cercado por interesses e valores que dificultam o abandono definitivo dos testes em animais.

A nova lei altera a Lei Arouca (nº 11.794/2008), que regulamenta o uso científico de animais, e inclui novos artigos que reforçam a adoção de métodos substitutivos. A legislação atual prevê três exceções: o uso de animais será permitido apenas quando se tratar de ingrediente amplamente utilizado e insubstituível, houver risco à saúde humana ou inexistirem métodos alternativos. A lei estabelece um prazo de dois anos para a implementação das medidas previstas. Enquanto isso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que está realizando estudos internos para avaliar se a regulamentação vigente já permitiria a implementação das ações ou se há necessidade de elaborar novas normas.

O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), órgão criado pela Lei Arouca e responsável por reconhecer e validar métodos alternativos no país, já havia determinado, em 2023, a proibição de experimentos com animais para cosméticos. “As nossas resoluções normativas têm legitimidade de lei dentro do país. Então, essa nova lei é super bem-vinda, mas ela não traz novidades para o Concea, porque nós já atuamos há mais de dois anos nessa proibição”, explica Luisa Braga, coordenadora do conselho.

Confira a linha do tempo da legislação brasileira sobre experimentação animal

Embora a aprovação da lei tenha sido celebrada por organizações e pela mídia, o texto gerou críticas dentro do próprio movimento de defesa animal. George Guimarães, ativista, fundador e presidente da ONG VEDDAS, iniciou uma campanha pela alteração ou fim do projeto de lei ainda em 2013, afirmando que a proposta aprovada traz retrocessos e é nociva para os animais. Ele argumenta que a Lei de Crimes Ambientais de 1998 (nº 9.605), em seu artigo 32, já proibia o uso de animais em testes quando existissem métodos substitutivos reconhecidos. “A gente tem uma lei de 1998, que já tem 27 anos, proibindo os testes quando há métodos alternativos. Proíbe no mesmo dia, não em cinco anos. Por isso, a nova lei é um retrocesso, pois cria um excludente de ilicitude”, contesta.

O dispositivo a que ele se refere está no artigo 14, parágrafo 8º, que permite o uso de animais por até cinco anos após o reconhecimento de uma técnica substitutiva. Para George, esse prazo cria uma lacuna de impunidade que posterga a transição. “Se a cada cinco anos surge um novo método, o prazo se renova, e a gente nunca chega lá”, afirma e questiona: “independentemente da lei anterior, se já tem um método alternativo, por que esperar cinco anos?”

O ex-deputado Ricardo Izar (Republicanos) é o autor do projeto de lei, aprovado na Câmara em 9 de julho. Em sua biografia no Instagram, ele se apresenta como “defensor dos vulneráveis” e possui destaques promovendo a hashtag #AnimalNãoÉCoisa, com imagens de cães e gatos. A postura do parlamentar, no entanto, gerou controvérsias entre ativistas, que apontam contradições entre seu discurso e o conteúdo final da proposta.

Durante a tramitação do projeto, George afirma ter observado a movimentação de um lobby político da indústria cosmética que, segundo ele, envolveu o próprio autor do projeto. “O Izar admitiu em entrevista que o texto foi redigido a três mãos: pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por membros da indústria e pelo Concea”, relata. A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), que representa empresas do setor, comemorou publicamente a sanção da lei em seu site e redes sociais, mas preferiu não conceder entrevista para esta reportagem.

Para o ativista, leis como essa, que “pegam bem” e passam no Congresso, só servem aos interesses da indústria. “É uma lei travestida de defesa animal, escrita por um deputado que se travestia de protetor de animais”.

O desenvolvimento dos métodos alternativos e os impasses atuais

Nos últimos anos, o desenvolvimento de métodos substitutivos ao uso de animais em experimentos vem ganhando força no Brasil, impulsionado por avanços científicos, novas leis e mudanças éticas e culturais. Com o avanço de técnicas como cultivo celular, pele humana reconstruída e simulação computacional, já é possível testar substâncias sem recorrer a cobaias – prática adotada por empresas como L’Oréal, Natura e Grupo Boticário. No entanto, apesar de seu potencial de substituir essas práticas, os métodos alternativos ainda enfrentam diversas formas de resistência.

Para as agências regulatórias, a substituição completa do uso de animais em cosméticos já era uma realidade antes mesmo da aprovação da lei, de acordo com Luisa Braga, coordenadora do Concea. “O que acontecia é que algumas instituições e indústrias ficavam um pouco inseguras com o fato de ser só uma resolução normativa e não uma lei”, explica. Por isso, elas ainda não haviam aderido completamente aos métodos substitutivos.

Apesar da brecha na nova lei, Luisa destaca que desde a publicação da resolução que regulamenta os testes substitutivos, nenhuma solicitação para uso de animais em cosméticos chegou ao Concea. “O pessoal está muito ciente, e indústrias como L’Oréal e Natura estão muito avançadas nessa parte dos métodos alternativos. Elas já utilizam pele humana reconstruída e estão nesse patamar de substituição há bastante tempo”, afirma.

Conforme nota enviada à reportagem, o Grupo Boticário já está há 25 anos sem realizar testes em animais. Em 2026, com a reforma de seu Centro Pré Clínico, terão ambientes especializados para pesquisas in vitro e in silico, conforme Juliana Canellas, diretora executiva de Qualidade, Excelência e Cuidado do Grupo Boticário. A companhia investe em métodos alternativos inovadores, como o modelo de epitélio ocular, que avalia o potencial das substâncias de irritação nos olhos; a Pele 3D Reconstruída, que imita a pele humana com fibroblastos, queratinócitos e melanócitos; a Pele 3D Bioimpressa com Folículo Capilar, que utiliza bioimpressão 3D com biomateriais e células para recriar tecidos; entre outros que simulam o comportamento de órgãos humanos e a pele de bebês recém-nascidos.

A Pele 3D é produzida em laboratório, camada por camada, e permite realizar testes seguros de matérias-primas e produtos acabados, sem a necessidade de testes em animais. Foto: Grupo Boticário

O Concea mantém um repositório público de métodos substitutivos, disponível em seu site, onde pesquisadores podem cadastrar e consultar técnicas para atividades didáticas. Todos os métodos alternativos validados internacionalmente passam a ser automaticamente reconhecidos pelo conselho, sem necessidade de outros protocolos. Até a finalização desta reportagem, dois novos métodos estavam em processo de validação aguardando pelo reconhecimento.

Saiba quais são os métodos alternativos e como funcionam

Essas substituições são especialmente viáveis em setores onde as moléculas já são amplamente conhecidas. “A maioria das moléculas de cosméticos já foram testadas. Não tem necessidade de testar de novo cada vez que se cria um blush novo”, resume Luisa.

O impasse, então, está nos setores onde os testes em animais ainda não são substituídos. Atualmente, existem três situações onde é permitido o uso de animais: nas instituições de ensino públicas, para pesquisas e aulas, nas instituições de ensino privadas, para o mesmo fim, e nas Organizações de Pesquisa Contratada (CROs, na sigla em inglês), que são as empresas terceirizadas que prestam serviços de pesquisa para a indústria farmacêutica, de biotecnologia e de medicina. “Para chegar ao final da experimentação animal, a gente vai ter que ter alguma coisa que a substitua. Para os cosméticos, nós temos. Para experimentação animal, não”, aponta Luisa.

Para George Guimarães, ativista, a pergunta não deveria ser se há métodos alternativos em outros setores, mas, sim, se há a necessidade de testes em qualquer setor. Na visão do ativista, a substituição é não apenas possível, mas urgente, e o uso de animais, além de eticamente problemático, é cientificamente ultrapassado. “Os testes em animais não contribuem em nada. Enquanto você está fazendo teste em animais, está atrasando o desenvolvimento de métodos alternativos”, critica. “Eles servem basicamente para proteger a indústria, não o consumidor.”

George argumenta que a validação animal funciona como uma barreira burocrática que legitima práticas obsoletas. “Muitos produtos passam nos testes animais e dão problema quando chegam nos testes em humanos. Então, não serviu pra nada. Só cria uma burocracia para a indústria poder tirar a dela da reta”, afirma. Ele lembra que substâncias como a aspirina e a morfina, hoje amplamente utilizadas, não teriam sido aprovadas se dependessem dos protocolos atuais, já que provocam efeitos fatais ou opostos em várias espécies animais.

Para ele, a lógica da indústria cosmética também revela uma dimensão econômica do problema. “Hoje em dia, os testes em cosméticos só servem para fins de patente, para ter um produto exclusivo. Não é porque as pessoas precisam de novos produtos, porque não tem o suficiente no mercado ainda”, pondera. Além disso, dependendo da situação, implementar métodos substitutivos custa mais dinheiro. “Desenvolver métodos novos dentro de uma empresa ou indústria é mais custoso e mais trabalhoso do que fazer o que você já sabe”, aponta.

Apesar das discordâncias entre a perspectiva regulatória e a ativista, ambos concordam que a mudança estrutural exige tempo, investimento e vontade política. Luisa acredita que a nova lei representa um ponto de partida para fortalecer as pesquisas em métodos substitutivos; George defende que apenas a abolição total do modelo animal criará espaço real para inovação. “Enquanto houver a possibilidade de testes em animais, o desenvolvimento dos métodos alternativos ficará suprimido”, reforça ele.

Alternativas ao uso de animais ainda enfrentam resistência na UFSC

Quando uma instituição pretende utilizar animais para testes em projetos de ensino e pesquisa, precisa preencher um formulário do Concea informando a espécie, o número e a origem dos animais, as condições de transporte, alojamento e manutenção, o grau de invasividade do procedimento, o método de eutanásia a ser feito antes do descarte do animal, entre outras informações. A coordenadora do Concea, Luisa Braga, observa que a primeira pergunta deste formulário é sobre a existência de alternativas: “se tu vai usar algum animal, tu tem que explicar porque tu não está usando um método alternativo.”

A Resolução Normativa (RN) nº 49, de 7 de maio de 2021, do Concea, determina que todo pesquisador que utilize animais em atividades de ensino ou pesquisa comprove capacitação em ética, prática e treinamento específico nas técnicas e procedimentos que pretende realizar naquela espécie. Além disso, cada equipe capacitada deve contar com a supervisão de um médico veterinário. A mesma resolução torna as Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs), braço do Concea dentro das instituições, responsáveis pela validação dessas capacitações. No Brasil, toda instituição de ensino é obrigada a ter uma CEUA, e toda CEUA deve ter um representante da sociedade protetora dos animais.

No entanto, a distância entre a norma e o que acontece nos laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ainda é grande. Conforme o artigo 8º do regimento da CEUA/UFSC, de 2022, cabe à comissão estabelecer programas preventivos e realizar visitas de fiscalização sem aviso prévio aos laboratórios. Georgia Grecco, formada em Biologia pela UFSC, por exemplo, conta que atuou por um ano no Laboratório de Neuroendocrinologia e Metabolismo (LANeM), em parceria com o Laboratório de Neuroplasticidade (Lanep), onde utilizam camundongos vivos porque é o método mais viável economicamente. Estes animais vêm do Biotério Central da UFSC – uma espécie de viveiro onde se conservam os animais utilizados em testes, e no laboratório a equipe faz cruzamentos e mantém colônias. Por isso, já não entra na conta o custo do animal, por exemplo. Durante o período em que ela trabalhou lá, não houve fiscalização. “Ninguém nunca pediu e eu nunca vi pedirem [certificado], sabe? E tu vê que acontece umas coisas que tu fica, tipo, ‘pô, teria que ter uma fiscalizaçãozinha um pouco melhor’”, pondera. A CEUA respondeu em nota que “as visitas de fiscalização presenciais são realizadas com intervalo máximo de dois anos” e que, no momento, “vem aplicando sanções aos locais em não conformidade estrutural”. Na resposta, entretanto, a comissão não detalhou quantos laboratórios foram visitados no período, se e quantas sanções foram aplicadas ou se e quantos projetos tiveram aprovação negada por falta de capacitação.

A CEUA/UFSC disponibiliza uma cartilha de orientações para comprovação de capacitação, na qual estabelece que “os treinamentos devem ser presenciais e orientados a quem efetivamente realizará os procedimentos nos animais”. Somente para alunos da pós-graduação se abre uma exceção, quando não há oferta de curso da espécie em questão na Universidade. Na prática, esse caráter presencial nem sempre se cumpre. Georgia conta que, ao iniciar as atividades no laboratório, foi obrigada a apresentar comprovação de capacitação, mas a única possibilidade era um curso on-line, feito pela Fiocruz, já que a UFSC não estava ofertando cursos naquele período. Ela não via sentido em fazer esse tipo de capacitação virtual: “a gente aprendia ali umas coisas teóricas, via foto de como era a reação do animal, se ele estava bem, se ele não estava. Mas na hora de mexer eu não tive contato. Fui ter mesmo quando eu tive que fazer as coisas dentro do laboratório.” A CEUA afirma que cursos online podem ser aceitos “quando não há oferta presencial”, desde que sigam os conteúdos mínimos exigidos pela RN 49/2021, do CONCEA.

A bióloga relata que nunca tinha ouvido falar dessa obrigatoriedade de capacitação antes de começar a atuar no laboratório. Sabia que existia uma matéria de manejo de animais em pesquisa, mas não deu importância porque não havia professor para ministrá-la. A disciplina consta como optativa na grade curricular dos cursos de Biologia da UFSC, no entanto, não é ofertada por falta de docente, aponta. “A gente tem matérias que estudam modelos animais, obviamente. E tem um professor ou outro que divulga algum artigo que fala mais específico disso [métodos alternativos]”, informa. Seus colegas, segundo ela, também não sabiam da existência da disciplina optativa ou da obrigatoriedade de capacitação para utilizar animais em testes.

O assunto acabou virando tema de seu TCC, concluído em 2025 e intitulado Métodos alternativos ao uso de animais em pesquisa: o que já vem sendo aplicado nas pesquisas da UFSC e qual o conhecimento dos discentes sobre o tema. Como resultado, a pesquisadora identificou que os métodos substitutivos são pouco divulgados dentro da Universidade. Para verificar o conhecimento dos alunos sobre esses métodos, Georgia elaborou um questionário. Ao pedir auxílio para divulgação nos centros, enfrentou resistência. “Alguns não divulgaram e não responderam, alguns responderam que não podiam divulgar o formulário”, relata. No entanto, as respostas confirmaram: estudantes, inclusive de Biologia, têm pouco conhecimento sobre métodos alternativos ao uso de animais. A bióloga conclui que falta exposição, inclusive, sobre laboratórios que utilizem essas técnicas. “Tu só vai saber se tu realmente for atrás de um professor em específico ou se algum professor acabar indo falar contigo”, expõe.

Para a pesquisadora, a solução passa por medidas simples, mas consistentes, de comunicação e formação. Passos importantes seriam, por exemplo, uma melhor divulgação nos sites dos cursos da UFSC, que hoje não são tão acessíveis, palestras para os estudantes ou a oferta da própria matéria optativa de manejo de animais – não só para o Curso de Biologia, mas para todos que fazem pesquisa com animais.

George Guimarães, ativista, observa que existe um “engessamento” no setor, que mantém o uso de animais. Para ele, o caminho é pela legislação. “Se você, por força de lei, proíbe isso, esse professor ou aprende uma técnica nova, ou aprende as que já existem, ou ele se aposenta, porque ele não vai mais ter o que fazer ali”, reforça.

“O modelo animal já tem todo um aparato montado. Então, as universidades têm biotérios e professores que há décadas trabalham assim. Se você termina com isso, como é que esse professor vai ensinar as técnicas novas? O cara que está há 40 anos usando o modelo animal vai achar mais fácil se aposentar”, reflete George.

Conforme o regimento da CEUA/UFSC, é também sua competência “incentivar a adoção dos princípios de refinamento, redução e substituição no uso de animais em ensino e pesquisa científica”. Luisa, do Concea, reforça: “quem tem que estimular dentro das instituições são as CEUAs. E o uso de métodos alternativos tem que ser, obrigatoriamente, de conhecimento dos pesquisadores, senão eles vão estar incorrendo em alguma ilegalidade”. Ela acrescenta que denúncias de irregularidades costumam chegar ao conselho por meio da plataforma Fala.BR, que, ao acionar a CEUA da instituição, exige apuração imediata. Se for constatada a infração, é aberto um processo que prevê punição para o pesquisador, para a instituição e para a própria comissão, com sanções legais e multas, variando conforme a gravidade.

Enquanto a resolução normativa completa mais de três anos, a UFSC ainda caminha lentamente para transformar em rotina o que hoje é exceção: garantir que toda pessoa que manipule animais em pesquisa esteja devidamente treinada e ciente das alternativas. O cenário descrito pela pesquisadora Georgia mostra como a legislação, embora avance no papel, só terá efeito prático se acompanhada de fiscalização efetiva, incentivo institucional e mudanças na formação acadêmica.

Um futuro sem cobaias?

Apenas alguns quilômetros para o norte, a situação já é um pouco diferente. Pós-doutoranda em bem-estar animal na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a pesquisadora Karynn Capilé tem se dedicado à formação ética e técnica de quem atua nas Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) e à promoção de métodos alternativos para o ensino e a pesquisa. Ela também é responsável pela área de bioética do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal – ONG que, em parceria com a universidade, oferece cursos de capacitação para representantes da proteção animal nas CEUAs. “Muitas comissões não conseguem preencher essa vaga obrigatória. E, quando conseguem, às vezes o representante é alguém que gosta de cachorro e gato, mas que não tem familiaridade com o assunto científico. Essa pessoa acaba nem participando das reuniões ou não sabe como ajudar”, explica.

O projeto desenvolvido por Karynn busca preencher essa lacuna. “No curso, a gente aborda desde o que é ética até detalhes de como fazer uma análise de uma proposta de ensino ou pesquisa com animais. Já formamos mais de 500 pessoas”, conta. A iniciativa, segundo ela, revelou a carência de formação ética e filosófica entre os membros das comissões, algo que compromete a profundidade das discussões. “As CEUAs têm um grande potencial de contribuir para o debate sobre o uso de animais, mas esse potencial não está sendo aproveitado por uma lacuna de formação dos seus membros. É muito raro que alguém tenha formação em ética”. Segundo ela, mesmo que as pessoas se dediquem e estudem os protocolos, não receberam capacitação para lidar com o tipo de debate ético que é exigido ali. Então, as discussões são rasas e a ética acaba nunca sendo discutida.

A pesquisadora destaca ainda que todas as CEUAs funcionam de forma voluntária no Brasil, ao contrário do que ocorre em países como Estados Unidos e Canadá, onde seus membros são remunerados. A ausência de incentivo, somada à falta de formação específica, resulta em um ambiente burocrático, mais voltado à aprovação de protocolos do que à reflexão moral. “A pergunta ‘é justo fazer pesquisa em indivíduos sencientes?’ não é discutida dentro das CEUAs”, observa.

Para ela, esse quadro está diretamente ligado à forma como a ciência é ensinada e praticada nas universidades. “Se eu tivesse que escolher uma coisa só para mudar nas instituições, seria o desenvolvimento do pensamento crítico. As pessoas precisam desconstruir preconceitos sobre o que é ciência. É urgente e necessário investir na formação crítica dos pesquisadores”, afirma. Karynn defende que cursos como biologia, medicina veterinária e ciências biomédicas incluam disciplinas obrigatórias sobre filosofia da ciência e promovam mais interdisciplinaridade, envolvendo profissionais das áreas de bem-estar animal, etologia e ética nas discussões sobre ensino e pesquisa. “A gente tem aqui no Brasil pesquisadores brilhantes, reconhecidos internacionalmente, mas eles nunca são chamados para debater nos eventos. Isso é uma coisa muito estranha. Prejudicial, na verdade.”

A partir do caso dos beagles do Instituto Royal, em 2013, a questão da experimentação animal ganhou maior visibilidade pública. Para Karynn, o episódio marcou um ponto de inflexão: “as pessoas ficaram sabendo que isso existia. Que existiam CROs, que pesquisas com animais eram feitas, que beagles eram usados”. No entanto, até hoje, muitas pessoas acreditam que apenas ratos são usados em testes. “Várias espécies são usadas. No Brasil, cachorros e gatos, inclusive, são muito usados também. A desinformação ainda é grande. Até nessa questão dos cosméticos mesmo, quando a lei foi sancionada e apareceram reportagens, muitas pessoas falaram ‘eu nem sabia que isso acontecia’”. No seu entendimento, a lei foi sancionada por uma convergência de interesses. “A indústria se uniu com a sociedade protetora dos animais. Foi por isso que deu certo. Para que no futuro a gente tenha mais sucesso na substituição do uso de animais, a gente precisa conseguir concatenar os interesses”, afirma.

Karyn concorda com George Guimarães ao afirmar que, apesar dos avanços legais, o uso de animais em pesquisas permanece amplamente dominante, sustentado por um sistema que está engessado. “Os interesses por trás desse modelo são muito fortes, antigos e enraizados. Os professores e os pesquisadores aprenderam a fazer desse jeito. Eles sabem onde comprar os camundongos, o protocolo a ser feito, a forma de escrever o artigo que querem publicar. Tem também o dono da empresa que vende o equipamento, a gaiola, o material de laboratório. O órgão regulamentador faz as verificações com base nesse modelo. Então, eles também não querem que mude, porque se mudar, eles vão ter que mudar também”, analisa.

“É como se fosse um círculo cheio de partes. Todas essas partes estão muito engessadas e terão muito trabalho se alguma coisa mudar. Então, elas têm muito interesse que continue assim. No meu entendimento, para que haja algum sucesso, é preciso juntar todas essas partes, ou pelo menos as mais fortes, para que elas tenham interesse em mudar”, considera Karynn.

O exemplo que ela traz sobre o diagnóstico da raiva ilustra esse cenário. O método tradicional no país envolve inocular o vírus no cérebro de camundongos, um processo que pode levar até 30 dias. “Existem métodos alternativos mais rápidos, seguros e precisos, e não envolvem sofrimento animal. Alguns deles, inclusive, entregam o resultado na hora”. Esses métodos são in vitro e utilizam recursos como amplificação de DNA e técnicas de engenharia molecular, tecnologias que dispensam o uso de animais. “Mas, dos quase 40 laboratórios que fazem diagnóstico da raiva no Brasil, apenas dois substituíram o uso de animais”, ressalta.

A resistência, ela afirma, não é técnica nem financeira. “Já foi feito estudo de custo e, a longo prazo, o método alternativo para diagnóstico da raiva é até mais barato. E não é um problema técnico. Se fosse, todos os casos em que já temos tecnologia estariam substituídos, e não estão. Nem 5%”, observa. Nas universidades, a situação pode ser diferente, já que há a possibilidade de utilizar os animais que vêm dos próprios biotérios, praticamente sem custo. “Mas, em geral, costuma ficar mais barato o método substitutivo porque a manutenção de animais vivos é cara e perigosa, além dos problemas éticos”, aponta. Por isso, Karynn entendeu que não adianta apenas argumentar cientificamente. “É preciso que o Concea proíba o uso de animais nesses diagnósticos. E então, aquele círculo que está todo engessado, começa a ter uma fissura. Um provoca a mudança do outro”.

Na universidade, essa estrutura se reflete na falta de opções para estudantes que se opõem moralmente ao uso de animais. A objeção de consciência, lembra Karynn, é um direito constitucional que todo cidadão brasileiro tem. “Nenhum professor pode obrigar um aluno a usar animais. Se, por razões morais, o aluno é contra isso, o professor é obrigado a oferecer uma alternativa sem que ele seja prejudicado.” Ela cita o exemplo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde estudantes da Medicina Veterinária elaboraram um modelo de objeção de consciência para facilitar o processo. “Existem casos também de objeção de consciência coletiva, quando uma turma inteira se posicionou junto à universidade dizendo que não queria usar os animais em aula.”

O engajamento da sociedade, no entanto, ainda é mínimo. “As pessoas não sabem o que acontece nos laboratórios. Muita gente, por exemplo, gosta de cão e gato, e dá a eles um remédio que foi testado em animais, muitas vezes na própria espécie que ela gosta. O envolvimento é quase nulo”, lamenta. Mesmo entre ONGs de proteção animal, o tema é pouco tratado. “A maioria se dedica a cães e gatos em situação de rua. Algumas se dedicam também à redução do consumo de carne. Mas a experimentação animal é o assunto menos comentado”. Quando é publicada uma notícia sobre alguma lei nova, as ONGs comemoram como uma “vitória para os animais”, mas não possuem campanhas permanentes, aponta ela.

A UFSC é a única universidade no país que possui um programa de adoção de animais de laboratório de forma institucionalizada. A imagem é da Tulipa, primeira ratinha adotada e que dá nome ao projeto. Foto: Luciana Honorato

Para ela, a explicação para a falta de engajamento é dupla: trata-se de um tema técnico e, ao mesmo tempo, moralmente confuso no imaginário social. “Hoje em dia já é mais fácil as pessoas entenderem que consumir carne é uma preferência, não uma necessidade. Enquanto o uso de animais na ciência ainda é visto como algo realmente necessário. No imaginário da sociedade, isso é algo que está sendo feito pelo ‘bem da humanidade’, porque não tem outro jeito de fazer”.

A mudança, diz Karynn, só virá quando a sociedade se importar mais com os animais. “Por consequência, os políticos também vão se envolver mais, porque, no fim das contas, eles querem se aproximar das pautas que são mais populares”, afirma e reforça: “o que vai acontecer no futuro depende totalmente disso. Do diálogo e da concatenação entre as partes”. Sem uma revisão profunda de valores éticos, a prometida soberania animal corre o risco de permanecer apenas no discurso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.