Enzo: exemplo de luta para inclusão

Texto: Ediane Mattos (edimattos@gmail.com)

Para Sabrina D’Aquino, mãe de Enzo, 4, os dois primeiros anos de participação na educação infantil foram marcados por momentos bons e ruins.Tudo refletido diretamente no comportamento do filho autista.

Em 2010, quando matriculou o filho em uma escola particular de educação infantil, Sabrina sentiu segurança na professora. “Ela não tinha medo, nem preconceito. Sabia como lidar, sabia identificar quando era birra de criança ou uma reação do autismo. Quando tinha que dar uma bronca ela dava. Os resultados obtidos, pela participação do Enzo na escola, eram os melhores”, avalia.

Porém, em 2011, mudou a professora e os problemas começaram a surgir. “Logo na primeira reunião eu percebi que ela era muito insegura. A fono e a psicóloga foram conversar com ela e apesar de não me falar nada eu sentia que ficava assustada com a situação.” Para uma criança autista a comunicação é reduzida. No caso de Enzo, Sabrina começou a perceber pelo comportamento do filho que algo estava errado. “Ele começou a fazer xixi na calça, coisa que ele não fazia mais, a se autoflagelar, empurrar os colegas, não era agressividade, mas uma maneira de mostrar que estava incomodado. Ele não participava das atividades, gritava.” A professora enviou um bilhete para a mãe dizendo que “o Enzo atrapalha o andamento da escola e não tenho como explicar para os pais o que está acontecendo.” A reação da professora reflete a falta de formação adequada para atender alunos especiais.

“A postura dela não era de inclusão, mas de querer resolver o problema em sala, pois não conseguia dar aula. Não era uma postura receptiva, era defensiva. Eu percebi que ela começou a deixar ele de lado, isolado, porque senão ele ia atrapalhar”, desabafa Sabrina.
No segundo semestre de 2011, Enzo começou a frequentar a APAE sob orientação da psicóloga que o acompanhava e mudou novamente de escola. De acordo com Sabrina “foi tudo perfeito, tudo começou a melhorar. A professora era maravilhosa, ele parou com a agressividade e se autoflagelava muito menos do que na antiga escola. Terminou o ano muito bem”.

Em 2012, ano novo, professora nova em outra turma. O que havia mudado, também, era a assistência feita pelo professor auxiliar de ensino. A escola decidiu que ficaria somente a professora regente em sala e três professoras seriam volantes, atenderiam os alunos especiais – cadeirantes, alunos com Síndrome de Down e autistas. “Em menos de um mês o Enzo começou a regredir no desenvolvimento, voltou a se agredir, fazer xixi nas calças. A coordenadora então me chamou e me disse que eu teria que contratar uma auxiliar para ele”. Conversando com a psicóloga do Enzo e com o pessoal da Apae a conclusão era de que “pelo rendimento dele no final do ano passado, não fazia sentido. Como ele está regredindo, se nada mudou?” Mas, de acordo com a professora, ele estava se jogando no chão, se machucando. “A preocupação, tanto da psicóloga quanto da Apae era a de criar uma dependência, sugeriram que ela esperasse pelo menos quatro sessões de atendimento na Apae para então tomar a decisão. Ele não precisava de um auxiliar só para ele”.

Sabrina conta que a escola começou a pressioná-la até que ficou sem saída e contratou uma auxiliar, contrariando as orientações da psicóloga e da Apae. A lei que garante um professor auxiliar, nos casos de deficientes que necessitem, é direcionada às escolas públicas e não deixa claro qual deve ser o procedimento em escolas particulares. A contratação serviu para Sabrina saber como era o tratamento dispensado ao filho. “A Aline informou que as crianças batiam nele, tinham medo dele, ele era forçado a comer quando se recusava, mandavam ele escovar os dentes, sendo que ele não consegue fazer isso sozinho. Comecei a pensar em mudar ele de escola.”

Após ceder a exigência da escola e contratar Aline para auxiliar, Sabrina recebeu um telefonema no trabalho da diretora, ela queria que Aline chegasse às 7h, junto com o aluno, e não às 8h como estava sendo feito, pois a outra auxiliar da escola não podia cuidar do menino nessa uma hora. “A Aline não podia chegar as 7h, pois tem um filho e como o problema informado sobre o Enzo era em sala e as aulas só começam às 8h, não tinha porque ela chegar mais cedo”, informou Sabrina. “Isso não é meu problema, quem tem problema são vocês, eu não quero que fique alguém colado no Enzo, isso não é inclusão.” Sabrina ouviu da diretora que “se a Aline não puder chegar às 7h, talvez eu tenha que trancá-lo em uma sala para garantir a segurança dele.” A declaração surpreendeu a mãe “eu resolvo o problema de vocês, o Enzo não pisa mais nessa escola”.

A atitude da diretora é uma forma de discriminação, como consta na Cartilha Direitos das pessoas com autismo, feita pela Defensoria Pública de São Paulo, “discriminação é todo tipo de conduta que viola os direitos das pessoas com base em critérios injustificados e injustos como cor, religião, orientação sexual,idade, aparência, doenças e deficiências (…) as pessoas com autismo podem sofrer diversos tipos de discriminação (como agressões verbais ou físicas), seja em espaços públicos (escolas, postos de saúde, shoppings, ônibus) ou mesmo em suas próprias casas”. A indignação de Sabrina foi expressa na sua conta em uma rede social, onde ela recebeu apoio, trocou informações e recebeu sugestões de como proceder.

Após a decisão de trocar de escola, mãe e escola fizeram o acerto financeiro e cortaram vínculo. O aluno já está matriculado em uma escola pública, recebe o auxílio do segundo professor, mantido pelo governo, e apresenta sinal de melhora no desenvolvimento e comportamento. “Ele não narra o que acontece, mas fala o nome da equipe de professores que estão na escola, são três de manhã e três a tarde, dos amiguinhos mais próximos. Antes você tentava falar de escola, ele ficava nervoso e não falava. E, agora que a vida do Enzo está resolvida eu vou processar a antiga escola. Meu maior interesse nisso é evitar que situações como essa se repitam”.

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