Duas passadas, um mesmo percurso
Ligados por uma guia e por uma rotina construída no esporte, Marco e Rosângela Laurindo transformaram o encontro numa pista de atletismo em parceria de vida e atuação pública.
Reportagem por Tonie Paganini
Em algumas corridas, vencer depende de encontrar o próprio ritmo. Em outras, de ajustar a passada ao ritmo de outra pessoa. Em um esporte que costuma premiar marcas individuais, eles construíram uma rotina em dupla. Há dez anos treinam, competem e atravessam provas conectados por uma pequena guia, num exercício contínuo de coordenação, confiança e atenção recíproca. Foi nesse compasso que a relação começou, quando Rosângela guiou Marco pela primeira vez durante um treino e os quilômetros previstos dobraram antes que a conversa terminasse.

No Centro de Desportos da Universidade Federal de Santa Catarina (CDS/UFSC), onde costumam treinar, a cena se repete: os dois chegam com roupas esportivas, ajustam os equipamentos e seguem para a pista. Marco corre à esquerda, Rosângela à direita. A pequena guia entre as mãos orienta o percurso e exige coordenação constante entre os dois. Marco é cego e Rosângela, além de esposa, é sua guia em todas as competições.
Marco tem 62 anos e é natural do Rio de Janeiro. Em 1982 se mudou para Florianópolis, onde trabalhou como fiscal na prefeitura por oito anos, até sofrer um acidente de carro que o cegou completamente. Começou sua trajetória como atleta em 2014, treinando corrida e nado em um projeto da Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiências, de Funcionários do Banco do Brasil e da Comunidade (APABB).
Rosângela, de 58 anos, é manezinha da ilha e pratica esportes desde 2002. Começou a correr a convite de um amigo com deficiência visual que precisava de companhia nos treinos.

Um encontro na pista
Rosângela ouviu falar sobre Marco pela primeira vez em 2014, quando o inscreveu na Corrida pela Paz, uma corrida organizada pelas forças armadas em nome da paz. Ela fez sua inscrição por meio do Sexto Sentido, projeto que capacita guias para corredores com deficiência visual. “Chamou a atenção o nome dele. Eu conheço todos os corredores cegos, quem é esse que eu não conheço?”, relembra ela. Marco responde em tom de brincadeira: “Já ficou de olho”. Ao fim dos 5km da corrida, Marco chegou ao pódio em segundo lugar, mas teve que sair antes da premiação. Rosângela foi a responsável por entregar o troféu mais tarde.
Cinco meses mais tarde, eles voltaram a se encontrar na Corrida da Base Aérea. Marco precisava de um guia e Rosângela indicou o filho, Eduardo, para acompanhá-lo. Foi só ao final da prova que conversaram com mais calma e tiraram uma foto junto ao grupo do projeto Sexto Sentido.
“Quando essa mulher tocou a minha mão, meu corpo gelou dos pés à cabeça. Te juro. A voz dela não saiu da minha cabeça”, relembra Marco.
O primeiro treino em dupla aconteceu pouco depois, quando Eduardo não pôde comparecer e Rosângela assumiu a guia.
“Era para a gente correr 5km, fizemos 10km conversando.” ela comenta, no que Marco retruca: “Eu corria até uma maratona”.
Eles começaram a namorar meses depois e seguiram treinando juntos. Sua união os levou a se tornarem triatletas, ele já era nadador, ela já pedala, ambos corriam. O triathlon surgiu quase como desdobramento natural dessa combinação.
A primeira vez
Apesar de treinarem as três modalidades há bastante tempo, a primeira vez que o casal participou de uma prova ocorreu somente em 2023 no Challenge Florianópolis, projeto mundial de competições, presente em mais de 15 países.
A estreia estava inicialmente prevista para 2020, mas a pandemia interrompeu treinos e adiou planos por dois anos. Quando retomaram a preparação, em 2022, a meta se tornou a prova do ano seguinte, mas a semana anterior à competição acumulou imprevistos.
Rosângela adoeceu poucos dias antes e recebeu recomendação médica para não competir. “Tomei um composto com própolis e cúrcuma, cinquenta gotas de manhã, cinquenta à tarde e cinquenta à noite para ver se eu conseguia”, lembra.
Na véspera da prova, outro contratempo: o carro apresentou problemas mecânicos enquanto levavam a bicicleta tandem — adaptada para duas pessoas — ao check-in. Conseguiram chegar depois de encontrar um mecânico no caminho.
No dia da prova, prestes a ocorrer a largada na prova de natação, veio mais uma tensão: a organização proibiu o uso da boia de sinalização, equipamento que não interfere no desempenho, mas aumenta a segurança de atletas com deficiência visual em águas abertas.
Marco ficou inseguro. Após a largada, com poucas braçadas, pensou em desistir.
“Ele perguntava: ‘Cadê a primeira boia?’. E eu dizia: ‘Tá pertinho’, mas eu também não estava vendo”, conta Rosângela, rindo ao lembrar da cena.
As etapas de ciclismo e corrida transcorreram com mais tranquilidade. Finalizaram aquele dia como triatletas e comemoraram a noite com amigos e macarronada. “Quando concluímos o percurso, eu percebi que as dificuldades vêm para mostrar como você é forte. Eu pensei no Marco, que é um poço de coragem, por toda a história dele, e está lá, naquele meio”, conta Rosângela sobre finalizar a prova.
Para Marco, além da esposa, foi a torcida que lhe deu força: “A única coisa que eu pensei foi na família que estava lá, saiu de casa cedo, a largada foi sete horas, querendo ver a nossa competição, eu não vou decepcionar as pessoas. Aconteça o que acontecer, eu vou até o fim”.

O esporte como convivência e circulação social
Mesmo com treinos frequentes e participação constante em provas, a lógica competitiva não ocupa o centro da rotina dos dois.
“Não competimos mais pelo pódio, mas para usar o esporte como forma de inclusão”, afirma Rosângela. Marco concorda, mas acrescenta: “Apesar disso, eu fui para o pódio agora em março.”
A atuação dos dois se estende para além das provas. Marco participa regularmente de aulas do curso de Educação Física da UFSC, onde compartilha com estudantes experiências relacionadas à prática esportiva com pessoas com deficiência visual. Ele e Rosângela também dão palestras na universidade e em escolas para falar da sua experiência, do esporte e da inclusão.
Além do projeto Sexto Sentido, os dois também participam de outros grupos com foco na população com deficiência visual. Rosângela já participou do projeto Novos Horizontes, grupo de pedalada em bike tandem no centro da cidade, em parceria com a Associação Catarinense para Integração do Cego (ACIC). Ela também organiza caminhadas pelo bairro Trindade no projeto Caminha ACIC. “É para tirar o pessoal do sedentarismo e, quem sabe, levá-los para o esporte”, comenta Marco sobre o projeto.
Marco e Rosângela são frequentadores da ACIC, onde compõem o grupo de dança contemporânea Bengalantes. Os dois encontraram uma nova paixão na dança, usando dela não apenas para se expressarem, mas para espalhar sua mensagem. “Queremos mostrar que a dança é para todos, independente de ter alguma deficiência ou não, você consegue dançar. Assim como no esporte, basta você dar oportunidades e condições para as pessoas fazerem aquilo.” como reforça Rosângela.


