lucky jetpinuppin upmostbet
Reportagens

Dona Solange e a resistência de uma das bancas de jornais mais antigas de Florianópolis

Aos 75 anos, Solange Maria Costa enfrenta o sumiço dos jornais impressos ao mesmo tempo em que tenta manter um ponto centenário vivo na cidade

Reportagem por Maria Eduarda de Souza e Pietra Simioni
foto: Maria Eduarda de Souza

“Chiii, chiii, chii.” O som da vassoura no concreto se espalha pela Praça XV, no Centro de Florianópolis, capital de Santa Catarina. É Solange Maria Costa, de 75 anos, empurrando as folhas secas e a poeira para limpar o entorno de uma das bancas de jornais mais antigas da cidade.

Com mais de 110 anos de história, a banca que Arthur Beck herdou do pai, Alberto, e do avô, José, foi comprada por Solange e pelo marido, Irival Costa, em 1972. Hoje, após o falecimento do esposo, ela mantém o negócio sozinha, abrindo por volta das 14h e permanecendo até à noite, muitas vezes até depois das 21h. 

É ali, naquele mesmo pedaço de calçada, que há mais de 50 anos Dona Solange acompanha as transformações que mudam o seu trabalho e o próprio jornalismo profissional. Ela relembra um tempo em que o carro-chefe da banca eram os jornais impressos. “Meu marido ia duas vezes buscar jornal, uma pilha assim, ó”, conta, levantando os braços até a altura da cintura.

Hoje, a realidade é bem diferente. Os jornais viraram digitais. Segundo o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, 78% dos brasileiros utilizam meios online para consumir notícias semanalmente, consolidando o ambiente digital como principal espaço de acesso à informação jornalística.

Em Florianópolis, esse dado é visível no balcão da banca onde resta apenas o jornal local impresso Notícias do Dia (ND), pertencente ao Grupo ND. Dona Solange recebe sete exemplares dele por dia. Jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro chegam em quantidade ainda menor, apenas um de cada. “O ND vem sete jornalzinho, tem dia que vendem dois, tem dia que vende um. Quase não vende. E de São Paulo? Um dia vende, outro dia não vende. É um jornal. É para ganhar 50 centavos… não dá nem para comprar o café da tarde”, relata.

“Antigamente vendia mais. Não tinha internet. Vendia bastante jornal, era Globo, Brasil, de Porto Alegre, Folha da Manhã, Folha da Tarde… o balcão era cheio.” Na época, a banca atendia instituições importantes da cidade. “Era tudo para desembargadores, vereadores, Marinha, Exército, Fazenda. A gente distribuía jornal nos locais. Quando chegava, já empacotava para cada um. Vinham buscar com carro e levavam tudo”, conta.

A ascensão do digital e das plataformas de mídia social não afetou somente os suportes de distribuição de produtos jornalísticos, mas também a rotina de quem vivia da circulação da informação produzida por profissionais e redações de todo país. 

Com a queda na venda de jornais, foi preciso se reinventar. Hoje, os produtos que Dona Solange mais vende na banca são água, refrigerante, picolé no verão e o café que faz em casa. O lucro serve para pagar o táxi de ida e volta do trabalho. Os maiores compradores da banca são os taxistas do ponto ao lado, que frequentam o espaço diversas vezes ao dia atrás do cafezinho. Além de vender produtos, a banca virou também ponto de informação no Centro.

– Vocês sabem onde tem pet shop aqui? Agropecuária? – perguntam algumas pessoas que passam.

– Acho que tem ali perto do Mercado Público – responde Dona Solange.

A banca sempre foi mais do que um ponto comercial, e Solange se emociona ao contar a importância que o espaço tem em sua vida. “Ela representa muito. Dou graças a Deus que criei meus filhos aqui, formei a família aqui. Eu vinha de manhã com eles, fazia comida de noite, até de madrugada trabalhava. Eles eram pequenininhos, eu colocava um colchãozinho aqui embaixo do balcão e deixava eles ali”, relata.

A nostalgia, infelizmente, não apaga os boletos e os desafios do presente pesam no fim do mês. “Tem luz para pagar, imposto, água. Tem que pagar um monte de coisa. Está muito difícil”, confessa. 

Durante cerca de uma hora e meia de entrevista, a rotina na Praça XV confirmou as dificuldades e também a resistência do ponto. Diversos clientes passaram comprando figurinhas para o álbum da Copa do Mundo. Mães, avós e crianças atrás das raras “extra stickers”, querendo pesar os pacotes, mas Dona Solange mantém suas regras rígidas. “Tem que ser igual para todos. Se eu liberar para um, todos vão querer e é proibido”, diz.

Nem mesmo as figurinhas e o álbum do Mundial, que trouxeram um fôlego momentâneo nas vendas, são garantia de estabilidade. “Agora deu uma melhorada vendendo as figurinhas, mas eles não mandam quase nada pra gente, mandam pro supermercado. Os supermercados estão ficando milionários e a gente está ficando pior. Olha… é difícil. Muito difícil”, lamenta. 

Ainda assim, ela segue firme atrás do balcão. Faz questão de atender a todos com paciência, às vezes até arriscando um conselho para quem encosta ali para conversar. “Eu tento atender todo mundo bem, porque a gente nunca sabe o que está passando na vida dos outros”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.