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Reportagens

Cinco mil vídeos por noite: o custo humano da moderação de conteúdo digital

Ex-moderador do TikTok relata rotina de até cinco mil vídeos por turno, contato diário com violência extrema e efeitos duradouros sobre a saúde mental

Reportagem por Clara Spessatto

Página inicial do site tiktok.com. Imagem: Unsplash

Imagens que seduzem. Festas, maquiagens e abraços. Imagens que chocam. Cenas de pedofilia, violência e suicídio. Fotos e vídeos de todos os tipos e conteúdos circulam nas plataformas digitais, muitos nem chegam ao usuário final. É nesse cenário que se situa o trabalho de Carlos* e de outros profissionais como ele, que trabalham como moderadores de conteúdo para grandes plataformas da internet. 

“Como moderador do TikTok, descobri que não conheço limites para a estupidez humana”, desabafa Carlos. O jovem, com idade entre 20 e 30 anos, atuou como moderador da rede de novembro de 2022 até fevereiro de 2025, quando a prestadora de serviço contratada pela plataforma chinesa em que ele trabalhava entrou em falência. Sua real identidade e o país onde sua história se passou precisaram ser ocultados, devido ao acordo de confiabilidade assinado com a empresa.

Carlos atuou como moderador de conteúdo com foco especificamente no Brasil, onde o TikTok tem mais de 91 milhões de usuários, segundo dados do DataReportal 2025. A experiência ainda deixa marcas na sua vida pessoal, segundo ele conta em uma conversa por chamada de vídeo. 

Basicamente, o trabalho de moderador de conteúdo, realizado por Carlos, consistia em assistir aos vídeos da plataforma e filtrá-los de acordo com a política da plataforma. 

“Importante explicar que há objetivos diferentes para análise de comentários e de vídeos”, explica. “Havia pessoas atuando em filtros de moderação de conteúdos, monetização, publicidade e também para hashtag. Cada grupo tinha suas próprias diretrizes”.

No caso de Carlos, seu grupo fazia a moderação de vídeos reportados por usuários ou pelo sistema de inteligência artificial da própria plataforma. Carlos descreve o cenário como “ uma torneira aberta”.

“Cenas de violência, morte, pornografia envolvendo criança, soft porn [cenas eróticas, sem representações extremas de atos sexuais], maus tratos a animais, suicídio, violência contra mulher e, até, child borning – mulheres em trabalho de parto”. 

A lista para o que Carlos viu durante seu tempo como moderador é extensa. “O que me assustava é que o TikTok subia automaticamente o vídeo. Até alguém reportar ou a IA dar o primeiro alerta, o vídeo circulava livremente na internet por duas a três horas”.

Os vídeos publicados na plataforma e reportados passam pela análise dos moderadores e, a partir daí, podem ser excluídos e ainda gerar um alerta às autoridades locais. 

Na empresa terceirizada em que Carlos atuou, os moderadores dividiam-se em turnos, assegurando o controle dos conteúdos 24 horas por dia. O jovem trabalhava das 23h às 5h da manhã. Ao longo das horas, fazia três períodos de descanso: dois de quinze minutos e um de 30 minutos. No final do expediente, já tinha visto e avaliado de três a cinco mil postagens.

Na mesma sala em que trabalhava, situada no sétimo andar de um edifício empresarial, ele tinha colegas  dedicados ao controle de conteúdos da Turquia, do México e de outros países. Em 2026, o TikTok já ultrapassa 1 bilhão de usuários no mundo todo. 

O que Carlos denunciava, seu colega que avaliava conteúdo da Turquia podia talvez não denunciar. Na zona franca da comunicação, as políticas de diversos países se misturavam. “No começo, a orientação para identificar se era um menor de idade, era ver se tinha tatuagem. Se tinha tatuagem, não era menor”, explica. “Era a partir da cultura chinesa que vinham as políticas para a gente moderar a cultura brasileira”, acrescenta. 

Para a advogada especialista em Inteligência Artificial e Segurança da Informação, Andrea Carmo Name, ao aceitar o termo de uso de determinada rede social, o usuário automaticamente concorda com as diretrizes do país onde a empresa foi desenvolvida – no caso de usuários do TikTok, a China. Apesar dos filtros de moderação respeitarem as leis nacionais, ainda há uma tendência das empresas que atuam globalmente de adotar práticas uniformes nos diferentes países em que atuam.

“Por isso, a revisão por humanos se torna fundamental”, destaca Name.

O controle humano de conteúdos que circulam nas redes sociais pode ser considerado essencial, como defende a advogada, entretanto, repassar esse papel de filtro para a IA é considerado mais ágil e econômico para as empresas. De acordo com o TikTok, em 2024, mais de 96% do conteúdo inapropriado foi removido de forma automatizada, sem antes ser visualizado por qualquer agente humano.

A partir da melhora gradual da capacidade da inteligência artificial em restringir conteúdos, o trabalho dos moderadores começou a reduzir. Várias empresas fecharam ao redor do mundo, inclusive aquela em que Carlos atuava.

“Eu levo duas coisas da minha experiência de moderador: a frieza de quem se habituou com cenas de violência e o vício no celular”. Ser bombardeado de informações, especialmente durante a noite, fez com que a ansiedade aumentasse, ocasionando até um ataque de pânico durante o expediente. “Na época, ainda não tínhamos uma psicóloga, ela chegou quase quando eu saí”, relata. 

Carlos leva as sequelas do excesso de dopamina daquela época, seja ao tentar fracassadamente ler um livro ou ver um filme sem pegar no celular. “Isso que fiz um detox logo que saí da empresa”, acrescenta. Para provar que o detox ajudou, pega seu celular e mostra que o uso diário da rede social hoje caiu para duas horas, “já chegou a ser cinco”. 

Questionado sobre o fechamento da empresa, o TikTok preferiu não se posicionar, mas garantiu que a moderação proativa – humanos e tecnologia – ainda faz parte das políticas de segurança da plataforma. Atualmente, são mais de 40 mil profissionais espalhados pelo mundo, atuando em equipes de moderação, de acordo com os dados informados pela empresa.

Hoje, Carlos não controla mais o que os usuários veem nas redes sociais, mas, por mais que lute para se manter afastado das telas, é ainda delas que vem o sustento para pagar sua faculdade: ele trabalha como vendedor de celular.

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