Cantadores de vida

Aos 18 anos, Caroline ainda acreditava em príncipe encantado, era romântica e adorava compor. Ela passava as tardes com sua prima escrevendo músicas com letras que falavam sobre amor. Através de suas composições, Caroline transmitia suas ideias e deixava transparecer a menininha que acreditava em contos de fadas.

Mas, como na música “Cota não é esmola” de Bia Ferreira, “o tempo foi passando, ela foi crescendo”. Agora ela não acredita mais em príncipe encantado. Caroline não atende mais como Caroline, seu nome é Carú. Carú ainda compõe, ainda transmite suas ideias através da música e deixa transparecer a mulher que se tornou. Suas canções não falam mais sobre amor. Agora Carú fala sobre força e liberdade, sobre aquilo que tem e o que ainda vai conquistar. A música serve como ferramenta de luta.

Expressões artísticas, de um modo geral, cumprem um papel fundamental nas sociedades. José Luiz dos Santos, escritor da obra O que é Cultura?, lançada em 1983, afirma que é através da arte que se é possível transmitir ideias, costumes e tradições para as gerações futuras. A música, a dança, a pintura, servem como expressão cultural de um povo.

A miscigenação brasileira faz com que a “cara” da nossa música também seja miscigenada. A Bossa Nova é tão simbólica para o país quanto o samba ou o funk. Apesar de origens distintas em termos socioeconômicos, todas representam uma parcela da população brasileira. Quando colocadas todas no mesmo saco, tornam-se Brasil.

E o Brasil é formado por deformidades. Problemas sociais escrachados em nossos níveis de educação e desigualdade social. E sobre isso também se canta. Os nossos índices de analfabetismo, taxa de desemprego e desigualdade de renda ganham letra e melodia. À isso, dá-se o nome de música de resistência.

A música de resistência sempre se faz presente por conta das classes sociais, hierarquia e  porque esta é a música do povo. Tal pode se manifestar de diversas maneiras. Não se trata apenas de canções com letras fortes e marcantes. A resistência pode estar no formato, no período histórico em que é composta, nos locais onde é cantada, na forma como é divulgada. Um músico de rua não necessariamente canta sobre suas vitórias e derrotas, ou sobre as dificuldades da vida. O fato de pegar um instrumento e ir pra rua gerar seu sustento faz de sua música uma ferramenta para resistir.

Numa perspectiva histórica, a música cumpriu um papel importante em períodos de conflitos ou em épocas em que as repressões sociais eram mais acentuadas. Ela servia como um símbolo cultural e representava, entre outras coisas, as dores de um povo. Ao falar sobre essas canções, Andre Alexandre, 23 anos, estudante de música da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC cita desde o samba, que retrata a vida no morro e os confrontos com a polícia, até o rap indígena, que aborda as dificuldades desses povos em se integrar à sociedade.

Segundo André, os maiores expoentes da música de resistência se deram durante o século XX, quando as camadas mais altas da sociedade passaram a reconhecer essas canções como forma de expressão. Desde então, tornou-se mais comum a difusão desse tipo de música, fazendo com que surgissem novos cantores e cantoras de destaque neste meio.

Durante a ditadura militar brasileira, por exemplo,  músicas como “Cale-se” de Chico Buarque, e o “O bêbado e o Equilibrista” de Elis Regina, burlavam a censura ao brincar com as palavras. Gilberto Gil e Caetano Veloso são outros expoentes deste período. “A canção popular propaga a memória, é a poesia de um povo”, relata Rafael Hagemeyer, professor de música da UDESC. No entanto, Rafael afirma que não surgiram outros músicos neste ramo e obtiveram a mesma repercussão. Isso se deu devido à simplificação do mercado musical, ou seja, devido a perda do caráter crítico e poético das canções. A música se tornou um produto no qual muitas vezes o compositor prioriza a mídia, o dinheiro ou entretenimento sobre a mensagem a ser passada.

Isso acontece, em parte, devido às inúmeras “distrações” do dia a dia. Uma rotina atolada em trabalhos, horas perdidas no trânsito, cuidados com a casa, com a família e tantas outras tarefas diárias tiram das pessoas o tempo de desfrutar e refletir sobre coisas menos essenciais. Como diz André, as pessoas ficam anestesiadas. “É o que o sistema quer: o pão e circo. Eles te dão o que você quer para você sentir prazer e te deixar anestesiado”.

Na atualidade, o cenário político do país faz com que a música de resistência volte a cumprir um papel importante na vida social, pois são em momentos de tensão social que elas se tornam uma ferramenta útil para protestar e/ou denunciar situações. Como diria Chico Buarque de Holanda em “Roda Viva”, uma das canções mais representativas do período da ditadura, a música “vai contra a corrente, até não poder resistir”, trabalha em oposição ao sistema vigente.

Com o maior acesso às mídias digitais e a potencialização da disseminação cultural, plataformas como Youtube, por exemplo, foram essenciais para que isso ocorresse. Tais fazem com que tenhamos acesso a uma grande variedade de conteúdo, entre eles  cantores que ainda não estão no mercado musical.

 

Sua negra tinta fará brotar a cor nessa cidade cinza que tanto te negou

Carú Bonifácio cantando no SESC de São José dos Campos, São Paulo/2018. Foto: Lethicia Galo.
Carú Bonifácio cantando no SESC de São José dos Campos, São Paulo/2018. Foto: Lethicia Galo.

Carú Bonifácio é estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista – UNESP, faz teatro, além de ser cantora e compositora. Apesar de não haver nenhum músico na sua família, desde cedo a música faz parte de sua vida. Com seu ingresso na faculdade, passou a perceber o seu espaço na sociedade de forma muito mais clara. “Quando eu comecei a estudar a história e todos esses processos do Brasil, foi que eu percebi que tenho esse corpo, eu sou a representação de tudo isso. Eu sou mulher, negra e periférica”. Essa consciência permitiu que escrevesse suas músicas a partir de suas trajetórias.

Carú já ouviu de amigos e colegas que as composições estavam ficando “pesadas demais” ou tratando de assuntos de forma muito agressiva, mas afirma que nada do que compõe é forçado ou não condiz com sua realidade. Ela vê sua música como um grito de liberdade, algo preso na garganta que precisa ser dito, não para provocar ou incomodar alguém, mas sim aliviar as pressões do cotidiano. “É o meu desabafo, é a minha voz em algum lugar. Porque às vezes a gente fala e ninguém escuta, então cantando vamos ver se funciona”.

Em Negra Tinta, Carú canta:

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas ôh preta pinta

Essa foi sua primeira música de grande sucesso que hoje, ultrapassa 200.000 visualizações no Youtube. Carú nunca recebeu grandes críticas negativas ou comentários maldosos via redes sociais, mas acredita que se seu trabalho ganhar maiores proporções, esse tipo de situação se tornará inevitável. Ela ainda está dando os primeiros passos na carreira. Sua maior experiência no palco foi na abertura de um sarau na Virada Cultural, um evento de música que acontece em São Paulo desde 2005, organizado pela Prefeitura Municipal. Na ocasião ela ficou muito nervosa, sentiu um furacão de emoções, mas o ambiente e a recepção das pessoas fez com que se soltasse e aproveitasse a nova experiência.

Carú tem vontade de continuar crescendo no mundo da música e fazer dela a sua forma de sustento, e sabe que isso implica vários desafios. “O que eu mais quero é poder viver de música, honestamente. Porque na verdade eu acho que eu não tenho outra saída não, ou é isso ou ferrou! Só que cada vez mais eu enxergo a dificuldade em relação ao cenário da música independente, porque tudo tem o seu valor, para conseguir materiais, para gravar um disco […] música é investimento. Muito investimento, muito trabalho, e às vezes o retorno demora”.

 

Não fomos criados para estar nos matando

Como outros jovens de sua idade, Tiago Costa de Jesus acredita no poder de transformação. Aos 19 anos, compõe canções de rap para denunciar situações que evidenciam seu cotidiano. Morador do Saco dos Limões, bairro de Florianópolis – SC, está envolvido com o rap desde muito novo, seja na forma de se vestir, nas gírias ou no jeito de andar. O rap para ele é uma forma de se mostrar ao mundo, mostrar o seu lugar na sociedade. Suas inspirações são seus vizinhos, seus colegas de trabalho, sua família. Suas músicas gritam aquilo que os olhos não querem ver:

Olha como os moleques estão ficando

Eu só pisquei já estão traficando

Até onde vai eu não sei

Só ouço o estudo larguei

[…]

Não fomos criados para estar se matando

Atrás de grade e mamãe chorando

A vida é tipo um barranco

“Eu procuro passar o outro lado da vida das pessoas que batalham todo o dia, que sofrem no trabalho pelo fato de não terem uma boa condição de vida, mas sempre deram um jeito de permanecer firmes nas suas escolhas, no seu modo de viver, no modo como tratar as pessoas”, defende.

Tiago canta em cima da lage de sua casa, local preferido para compor, onde vê a comunidade do alto e sonha um dia conseguir viver apenas do rap. Ainda no início da carreira, com duas músicas gravadas, é no palco democrático na batalha da Alfândega, no centro de Florianópolis, onde ele costuma cantar suas composições e improvisar junto a outros cantores de rap.

As batalhas são movimentos político-culturais, e ocupam os espaços públicos para expor a realidade de comunidades carentes. São enfrentamentos musicais, duelos de rimas entre dois cantores, mais conhecidos como MC´s, que devem improvisar dentro do ritmo. Elas são divididas em dois tipos: batalhas de sangue, em que os rappers devem usar recursos para desprezar o adversário, e batalhas de conhecimento, onde os MC’s rimam a partir de um tema preestabelecido. Em ambos os tipos, quem escolhe o ganhador é a plateia.

 

O hip hop salva “os irmão” e traz a esperança

MC DKG cantando na primeira edição da Batalha da Lomba/2018. Foto: Mathias Luz.
MC DKG cantando na primeira edição da Batalha da Lomba/2018. Foto: Mathias Luz.

Toda semana, Daniel Guedes Couto sai de casa e, com seus CD’s de baixo do braço, caminha em direção ao seu sonho. MC DKG, como é conhecido nas ruas, trabalha com música desde 2008 e hoje faz de suas composições uma fonte de renda. Ele ainda não consegue se sustentar apenas com a música, se vê obrigado a fazer trabalhos temporários. Com a ajuda de amigos, produz e dirige seus videoclipes e grava seus CD’s em um estúdio montado em casa.

A família apoia a coragem do cantor de perseguir seu sonho. Para os amigos, Daniel é fonte de inspiração e, assim como ele, acreditam que a música é capaz de transformar vidas, levando a arte para lugares onde o acesso é limitado. “O hip hop me educou, me ensinou a ser tudo que eu sou hoje”. Na sua música “Mantenha a Esperança”, lançada em 2017, o rapper fala do seu cotidiano:

vida de camelô

vendendo os cdzin

aquece o cafezinho

abre a porta e deixa entrar

os mano que apoiaram

os mano que montaram na vila o palco comigo

provaram amizade eu não duvido

MC DKG luta por sua música pelas ruas de Florianópolis. Tiago canta de cima de sua laje, sonhando por dias melhores. Carú fala sobre suas dores para aliviar as tensões do dia a dia. Os três fizeram da música o seu próprio megafone. A famosa frase do escritor britânico Oscar Wilde já dizia que “a arte imita a vida” e, por isso, é muito importante que a música mantenha seu caráter crítico e seja o reflexo de uma realidade. Cantar é, muitas vezes, o único meio de expressar uma ideia, a única forma de falar e ser ouvido em lugares onde a voz normalmente não chega. Seja na rua, na garagem de casa ou em um palco no Maracanã,  música é uma forma de expressão e representa as vozes de um povo. Ou, como diria Elis Regina, em “O Cantador”:

Cantador não escolhe o seu cantar

Canta o mundo que vê

E pro mundo que vi meu canto é dor

Mas é forte pra espantar a morte

Pra todos ouvirem a minha voz

Mesmo longe

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