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Reportagens

Campeche, Centro e Rio Vermelho são os maiores alvos da especulação imobiliária em Florianópolis nos últimos anos

Maior parte dos alvarás de construção aprovados pela prefeitura está nestes bairros; mobilidade e saneamento preocupam

Reportagem por Camila Borges em parceria com Desterro

Quase três anos após a última revisão do Plano Diretor de Florianópolis, já é possível visualizar a transformação no espaço urbano e a mudança de perfil da cidade. 

Conforme levantamento inédito realizado por esta reportagem, Campeche, Centro e Rio Vermelho concentram a maior parte dos alvarás de construção aprovados. Especialistas consideram esse avanço arriscado, diante da fragilidade ambiental e da falta de infraestrutura nessas áreas.

A equipe do Cotidiano e do Desterro analisou 883 alvarás emitidos pela prefeitura de Florianópolis de maio de 2023 a maio de 2025. Destes, 470 continham informações precisas e puderam ser localizados no mapa. Abaixo, é possível navegar pelos dados apurados.  

Marina Toneli Siqueira é arquiteta, professora da UFSC e doutora em planejamento urbano e políticas públicas pela Universidade de Illinois. Segundo ela, os impactos das mudanças vistas atualmente serão intensos e de longo prazo. 

Ainda não temos a total percepção do que vai acontecer. Mas, a localização dos alvarás no mapa, se correta, demonstra que há um interesse na cidade como um todo, não apenas em uma zona específica. Ou seja, os impactos podem ser amplos“, considera.

Mancha urbana de Florianópolis em 1985 e em 2024 (Fonte: Kleber Trabaquini – Projeto MapBiomas – Coleção 9 da Série Anual de Mapas de Cobertura e Uso da Terra do Brasil)

Além disso, urbanistas ouvidos pela reportagem destacam que a maior parte dos bairros que sofrem especulação imobiliária não contam com tratamento de esgoto e possuem infraestrutura de mobilidade antiga – com frequentes alagamentos e episódios rotineiros de trânsito intenso. 

Ângela Franz é servidora pública aposentada e mora no Rio Vermelho há cinco anos. Segundo ela, que também é presidente do Comitê de Resistência Popular do Rio Vermelho, o aumento de construções no bairro é visível diariamente por quem anda pelo local. 

Eu percebo muita movimentação para construção, escavação. Muita, muita. Condomínios grandes. Depois de 2023 aumentou o número de construções. Estão construindo muitas lojas comerciais, prédios todos comerciais. Eu nunca vi tanto. Nada se conecta com a cultura do bairro, tá se perdendo a identidade.” 

Os problemas de mobilidade no bairro também são enfrentados diariamente, segundo ela. “Quando eu vim prá cá, há cinco anos, moravam 8 mil pessoas. Agora são 30 mil. Os moradores nativos estão alugando e indo para outros lugares porque morar aqui se tornou inviável. A Rodovia João Gualberto é toda engarrafada. A mobilidade é inexistente, não temos calçada, não temos ciclovia. Demora duas horas e meia para chegar até o Centro.

Moradora do Campeche há mais de 20 anos, Elaine Tavares é servidora pública e conta que a dificuldade para se mover no bairro piora ao longo do tempo. 

É impossível viver no Campeche, é uma forma de expulsar a gente. Hoje se eu, Elaine, sair da UFSC às 16h, eu pego engarrafamento na avenida Pequeno Príncipe. O ônibus fica parado 40 minutos, em um trecho que não deve dar dois quilômetros.

Para ela, a chegada de novos empreendimentos ao bairro vai piorar também o problema com o esgoto. “O Campeche não tem esgoto. Esses empreendimentos gigantes deverão fazer a própria estação de tratamento e poderão soltar a água na rede pluvial. Eu pergunto: quem vai fiscalizar essa estação de tratamento privada?“. 

De acordo com o último censo do IBGE, de 2022, somente 57% dos domicílios de Florianópolis estão conectados à rede de esgoto. Segundo o Sistema Nacional de Informações de Saneamento Básico (Sinisa), do total de esgoto coletado na cidade, pouco mais de 60% é tratado.

Harnnon Cordeiro é arquiteto e urbanista e mora no Rio Tavares desde que nasceu. Ele conta que acompanhou a mudança do bairro que antes era essencialmente rural. O problema do saneamento também o preocupa. 

A gente não tem tratamento de esgoto no sul da ilha, nem perspectiva a curto prazo de ter isso. Isso é visto a olhos nus quando a gente olha lá a drenagem pluvial do Novo Campeche que deságua ali entre o Novo Campeche e o Rififi, atrás da Lagoa Pequena. É completamente eutrofizada. Então toda essa matéria orgânica fica ali represada”, explica.

Manifestação de moradores no bairro Campeche (Foto: Milton Ostetto)

Segundo o arquiteto e ex-vereador Lino Peres (PT), o Campeche é a maior planície disponível para expansão urbana em Florianópolis, seguida pelo Rio Vermelho.

Primeiro você repagina a infraestrutura, depois prevê o crescimento. Mas o Plano Diretor faz o contrário. É uma inversão de equação. Nós estamos andando pra trás. O lixo, o esgoto que vai ser produzido, o trânsito, a demanda de água e de energia, as consequências na paisagem não são levadas em conta. E toda a cidade vai sofrer com isso“, afirma Lino. 

Moradores das áreas visadas pela especulação imobiliária também relatam pressão de construtoras para vender suas casas. “As pessoas que vivem no Campeche tiveram suas casas rachadas por conta de prédios, pessoas que estão vendendo porque não aguentam mais a pressão das incorporadoras em cima deles. Porque tem que sair, vai botando bate estaca, vai cercando. Então é realmente muito triste. E a gente não consegue ver uma compreensão de que aquilo é uma destruição. Pelo contrário, as pessoas acham bonito”, desabafa Elaine Tavares.

Harnnon Cordeiro conta que sua família também pode ser alvo de intimidação pela especulação imobiliária no bairro. “Quem consegue resistir, resiste com medo. Minha família tem um terreno na beira da rodovia onde pode construir agora sete andares. A gente não quer, a gente quer ficar ali, quer fazer um negócio com propósito. Mas ao mesmo tempo, se surgir um prédio sete andares do lado, outro atrás, eu não vou ficar aqui”, lamenta.

O estudo dos 883 alvarás emitidos pela prefeitura de Florianópolis de maio de 2023 a maio de 2025 indica que a construção de casas ainda é o tipo de obra predominante na cidade. No entanto, em segundo lugar, aparecem os residenciais multifamiliares, como os prédios.

Além da mudança de perfil de residências na cidade, o tamanho médio das construções em metros quadrados também se alterou nos últimos anos. Muitos dos alvarás catalogados dizem respeito a grandes áreas construídas com 10 mil ou mais metros quadrados. Para fins de comparação, 10 mil metros quadrados equivalem a um campo de futebol.  

Angela Franz, presidente do Comitê de Resistência Popular do Rio Vermelho, lamenta a falta de compreensão da população sobre o que o Plano Diretor representa para a cidade. 

Mas se você falar aqui que vai ter um prédio de 20 andares, eles não estão pensando na mobilidade na escolinha, no posto de saúde, no ônibus lotado. Eles não estão pensando nisso, eles estão pensando unicamente no terreno deles. Eles não percebem as intempéries ao redor. Somente pensam no terreno, na casa deles que valorizou.

Elaine Tavares, membro da Associação de Moradores do Campeche, compartilha da mesma indignação. 

A coisa que eu mais brigo no movimento é quando eles falam: isso aqui vai virar uma Balneário Camboriú. As pessoas acham ótimo. Esse não é o argumento. Esse argumento não toca nas pessoas. Porque a pessoa não faz a ligação que ela não consegue se mexer no bairro, que ela não consegue tomar um café num lugar porque é R$ 25.” 

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