“Queria tanto que não senti nenhuma dor”: Brasil lidera ranking de cirurgias plásticas entre jovens

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Reportagem por Isadora Vicente (isadoravicente96@gmail.com) e Larissa Liz (larissafliz@gmail.com)

Naquelas noites de dormir na casa de amigas, Maria Carolina Espindola, 18, colocava os cabelos para frente a fim de esconder as pontas das orelhas, gesto que repetia nas aulas de ginástica e de educação física, em que a maioria das meninas prendem o cabelo. “Era uma coisa que as pessoas nem percebiam, mas me fazia mal”, conta, quando lembra da otoplastia a que se submeteu para corrigir as orelhas de abano. “Às vezes tu se incomoda e quer fazer por ti, mas tem muita gente que faz por causa dos outros. Por exemplo, falavam muito do nariz de uma amiga minha e ela ficava muito triste. Acho que ela mudou mais pelos outros do que por ela.” Aos 17 anos, S. B. travava batalhas diárias com o espelho. Ficava “indignada” com o tamanho, a seu olhar, pequeno dos seios e os biquínis só saiam dos armários quando tivesse certeza de que não haveria ninguém por perto. Depois de conversar com os pais e encontrar um cirurgião a quem confiasse a mudança no corpo, o pós-operatório de S. foi anestesiado pelo desejo de encontrar algo diferente no espelho. “Como eu queria muito aquilo não senti nada de dor. Saí da cirurgia com um sorriso de orelha a orelha. A minha autoestima melhorou muito”, contou. G. L. fez mastopexia, procedimento para levantar os seios, e colocou próteses de silicone aos 19 anos. Durante o processo entre decidir e fazer a cirurgia, a garota conta que se surpreendeu com a quantidade de jovens fazendo procedimentos estéticos. É defensora das intervenções. “Acho que hoje em dia é tudo muito fácil. A gente tem acesso, sabe como funciona e dá para ver toda a segurança e a tecnologia envolvida. Por que esperar para fazer se a gente pode fazer mais nova e se sentir bem?”, questiona. 

O descontentamento com a própria imagem, com alguma característica do rosto ou do corpo, é um dos principais fatores que levam adolescentes e jovens a realizarem cirurgias e procedimentos estéticos, segundo a cirurgiã plástica Lara de Luca Maciel. Entre as dificuldades envolvidas no processo, Lara conta que frequentemente precisa explicar que não é possível se transformar em outra pessoa, como famosos e amigos, em quem muitos pacientes se baseiam, e que a única possibilidade é planejar a intervenção que melhor combine com o tipo físico de cada pessoa. “A gente tem que explicar muito bem que cada caso é um caso e não tem como produzir um nariz, uma orelha ou um seio igual ao de outra pessoa”, afirma. Outra razão para escolher a cirurgia estética é que atualmente é mais seguro, além de poder, para Lara, trazer uma “solução imediata” para alguma insatisfação. Mas há casos em que a insatisfação está em outros níveis, do tipo que não é possível ver só de olhar. “Às vezes é um sofrimento psíquico maior e a pessoa acha que se mudar alguma coisa do lado de fora vai mudar por dentro como em um passe de mágica”, explica Raquel de Barros Pinto Miguel, professora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Ações em Gênero, Educação, Mídia e Subjetividade (NUGEMS) da universidade. 

Quando perguntadas sobre mostrar o nome, apenas uma das entrevistadas optou por se identificar. “A maioria prefere não contar porque significaria admitir uma ‘falha’ e precisou corrigir essa ‘falha’ para poder atingir o padrão. É como se a pessoa aparecesse perfeita e já tivesse nascido de acordo com o padrão construído socialmente”, diz Raquel. Aos 18 anos, G. P. resolveu pedir um presente que carregaria no próprio corpo: próteses de silicone. Acreditava ser a autoestima a razão principal para ter procurado a cirurgia. “Sempre achei que estava fazendo por mim, mas não sei se foi por mim ou por que o modelo que eu via na televisão era sempre mulheres com peitão e os namorados que tive no ensino médio sempre tiveram essa preocupação com seio grande, com o quadril grande. Já é uma dúvida. Não sei se eu colocaria hoje”, conta seis anos depois, aos 24. Nem sempre é possível reverter um procedimento estético. Por isso a maioria dos profissionais, explica Lara, recomenda acompanhamento psicológico durante o processo para que os jovens esclareçam as razões pelas quais estão procurando a cirurgia. Para a professora Raquel, que pesquisa temas como educação, mídia, subjetividade e juventude, um dos motivos que levam jovens a desejarem e fazerem cirurgias estéticas é um padrão de beleza divulgado, principalmente, pela mídia e pela publicidade. “Se eu me olho e não me sinto representada por ser gorda, por ser negra, ou porque o grande modelo de beleza perpetuado não é esse onde me encontro, é impossível não pensar que isso vai afetar a autoestima. Que possamos questionar e desconstruir isso aos poucos. Trabalhar na educação para as mídias e as questões de gênero na escola é uma maneira de fazer com que os jovens consigam se aceitar do jeito que são, independentemente de ser da forma A, B, ou C”, ressalta. 

2 Infográfico Cotidiano CIRURGIA PLÁSTICA

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