Projeto Terapeutas da Alegria completa 10 anos

Written by cotidiano on . Posted in Arquivo, Reportagens

Texto e fotos: Mariana Moreira ( rmoreira.mariana@gmail.com )

Na escola de formação de super-heróis, ele não consegue passar nas provas de voo e  de visão raio-X. Está tentando se formar há algum tempo. Conversa bastante, mas é inseguro. É atrapalhado, desastrado e tem grande dificuldade em terminar as atividades. Faz propaganda de si mesmo, busca estágios, tenta substituir o papel do homem-aranha, mas sempre sem sucesso.

O Doutor Quase Super é muito parecido com o Gustavo Machado, estudante de Psicologia que deu vida a ele. Gustavo usou para fazer o “doutor” as suas características mais marcantes e as potencializou de maneira cômica. O processo de criação de um personagem – sempre adaptados à figura dos palhaços – é uma das etapas do projeto Terapeutas da Alegria, que este ano completa 10 anos. Desta atividade voluntária podem participar estudantes da Universidade, independente do curso, e qualquer interessado da comunidade.

O grupo teve início no Hospital Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Tubarão, em 2002, e cinco anos depois foi trazido para a UFSC pelo pediatra Thiago Demathé. No início as visitas eram realizadas no Hospital Infantil Joana de Gusmão, na capital, e hoje os Terapeutas animam e brincam com crianças, jovens, adultos e idosos no Hospital Universitário. Além do Thiago, que foi o fundador, Walter Oliveira, psiquiatra, é o coordenador dentro da Universidade e fez com que ganhasse visibilidade, se transformando em projeto de extensão da Universidade. Para treinar os futuros palhaços, há também o auxílio da professora do curso de Farmácia Geny Cantos, que ajuda na preparação corporal.

A cada ano entram duas turmas de 50 a 60 pessoas para começar o processo de treinamento, que é dividido em duas etapas. Na primeira, que tem duração de um semestre, o grupo passa pela chamada “imersão”, ou seja, a vivência apenas entre os coordenadores e os recém-chegados. Durante este período são feitas atividades de preparação que trabalham a parte emocional, a expressão corporal, a voz e a criação do personagem.

Somente na próxima etapa do treinamento, no segundo semestre, é que começam as visitas ao Hospital, divididas em grupos. São sempre acompanhadas pelos coordenadores, que também vão dando dicas e ideias para o personagem ganhar forma e se concretizar. “É muito difícil construir o personagem logo no primeiro semestre. No segundo você está se ambientalizando com o Hospital, então fica mais fácil”, explica Gustavo Machado.

Os encontros são realizados uma vez por semana. Durante a primeira etapa são no horário do almoço e na fase das visitas, a tarde ou à noite. Depois do primeiro ano de treinamento os palhaços se formam em terapeutas. Em 2010, na turma do Dr. Quase Super, dos 50 calouros que entraram menos de 15 chegaram até o fim. Mesmo assim, o grupo está grande e a cada ano a procura aumenta, por isso neste semestre não foram abertas inscrições.

No horário das visitas, os Terapeutas não querem atrapalhar os médicos, enfermeiros e o funcionamento do Hospital e, na maioria das vezes, não sabem o diagnóstico dos pacientes. Passam em média de 15 a 20 minutos dentro de cada quarto – ou até quando a melhor piada sair. Na hora de se despedir, saem sempre no meio de uma brincadeira para deixar os pacientes esperando a próxima visita.

Quando colocam o nariz vermelho, antes de entrar no Hospital, se desvinculam dos sentimentos e de quem realmente são para mergulhar no personagem. Gustavo Machado conta que é fundamental manter o distanciamento do paciente, pois muitas vezes encaram situações difíceis. “O Quase-Super consegue lidar bem com essas situações, mas eu sei que eu, como Gustavo, não conseguiria”.

Para ele, um dos momentos mais difíceis como Dr. Quase Super foi no dia em que seu grupo visitou uma jovem de 19 anos, que havia sofrido um acidente e não conseguia se comunicar. A mãe, que a acompanhava, contou que ela adorava palhaços e que no dia seguinte seria o seu aniversário. Então cantaram parabéns, mas ela começou a chorar, “um choro de desespero”, conta. Na visita da semana seguinte, a mãe da jovem encontrou o Dr. Quase no corredor do Hospital, chorou, deu um abraço nele e disse que a filha estava se despedindo na UTI. “Nesses momentos a gente fica muito em dúvida se desvincula do personagem ou não. Não sabia se eu abraçava ela como se fosse o Gustavo, ou como se fosse o Dr. Quase-Super”.

A ideia principal é que o palhaço seja muito caricato ou então que tenha o perfil bastante diferente de quem o idealizou. É preciso saber se diferenciar do novo personagem de nariz vermelho que foi criado, mas a proximidade é inevitável. Gustavo tem 20 anos e há dois está envolvido com o Dr. Quase Super. Hoje não consegue se imaginar longe do projeto e das conquistas que alcança durante as visitas. No trabalho com crianças, conta que é possível inventar histórias, e que com adultos é mais fácil perceber a necessidade deles e ir criando as piadas. “É muito interessante como o adulto se liberta quando vê a gente”, conta, satisfeito.