Um jeito doce de ganhar a vida

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Texto: Merlim Malacoski (merlimiriane@gmail.com)
Fotos: Brenda Thomé (brendathome@gmail.com)

O carrinho é de feira, mas não está cheio de frutas ou verduras. Luciane Pereira Damas chega todos os dias na UFSC às 10h30 da manhã, e com a ajuda do marido monta seus dois guarda-sóis e os bancos que vão lhe servir de bancada. Logo espalha ali o conteúdo do carrinho: caixas de brigadeiros, casadinhos, cajuzinhos… e outros doces gelados. Pouca gente a conhece pelo nome, ali ela é a “Tia do Docinho”.

Luciane vende doces na porta do Restaurante Universitário há quase três anos, “comecei no dia 14 de junho de 2010, os guris da segurança dizem que faz tanto tempo que logo vão me chamar de ‘Vó do docinho’, essas pragas!”, brinca a doceira de 47 anos. É conversando com os funcionários que ela espera a abertura do RU, ou melhor, a saída dos estudantes.

Ela não é a única a comercializar doces na saída do RU, mas parece ser a mais procurada pelos alunos. “Acho que é pela qualidade e pela apresentação”, explica Luciane enquanto arruma os panos bordados em que embrulha as caixas de doces. “Hoje elas são de madeira com tampa de vidro, antes eram de papelão. Isso faz uma grande diferença na hora de oferecer os doces”.

Luciane faz cerca de 200 doces por dia e vende quase todos. Ela explica que prefere que falte do que sobre, por isso fica atenta a rotina da universidade: a terça e a quinta-feira são os dias em que costuma vender mais, pois o fluxo de alunos no RU tende a ser maior. O cardápio do restaurante também faz diferença: “quando tem iogurte de sobremesa não adianta, eu tenho que trazer menos”.

São nove tipos diferentes de docinhos enrolados e 13 de doces de colher, e segundo Luciane, o
casadinho é o mais procurado. Já os gelados são de nove tipos e o mais vendido é o de morango com chocolate. “Antes era o napolitano, mas parei de fazer porque dava muito trabalho: eu tinha que colocar a parte branca, esperar congelar; colocar a de morango, congelar; e só depois terminar com a de chocolate. Demorava muito.”

O tempo de produção dos doces é bem definido. Luciane volta para casa logo depois que o RU fecha e começa a enrolar os docinhos. A noite, já prepara a massa do dia seguinte. Nesse ciclo, ela recebe a ajuda do marido e da irmã mais velha: “ela não pode mais mexer nas panelas, mas ainda me ajuda a enrolar e embrulhar”.

Foi com a irmã que Luciane aprendeu as receitas dos doces, 15 anos atrás. “Ela teve câncer e parou de fazer, eu meio que assumi seu lugar”, conta
a doceira. No início, ela trabalhava com encomendas, tanto de doces quanto de salgados, mas essa não era sua principal ocupação. Luciane
trabalhava como auxiliar administrativa no Centro Comunitário do Pantanal, bairro onde sempre morou. Foi só quando ficou sem o emprego que passou a se dedicar às suas receitas.

005A ideia de comercializar os doces na saída do RU veio de uma amiga durante uma festa de aniversário. Desde então, Luciane priorizou a venda na universidade e passou a aceitar menos encomendas, “eu fazia outras coisas, mas sou perfeccionista e não tenho muita paciência para decorar receita de bolo”. Durante a greve dos servidores, porém, a doceira teve que voltar atrás. Com o Restaurante Universitário fechado, Luciene precisou atender de novo as encomendas, inclusive de salgados.

Atualmente ela diz que consegue tirar um bom lucro das vendas na UFSC sem ter que aumentar o preço dos doces. A ideia parece dar certo, pois entre um “me dá um de copinho” e um “quero três, por favor” a Tia do Docinho recolhe mais uma caixa vazia no horádio de pico do RU.