Quem vivia na beira do rio agora vive na beira da estrada

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O antropólogo guarani-kaiowá Tonico Benites fala dos conflitos e da situação de seu povo

Texto e fotos: Merlim Malacoski ( merlimiriane@gmail.com )

Seu nome é Ava Verá Arandú, mas também é Tonico Benites. Com tom de voz baixo, porém firme, ele fala da situação dos guarani-kaiowá não só como membro daquele povo, mas também como antropólogo e etnólogo nato, que estuda os conflitos entre indígenas e não indígenas no seu doutorado em Antropologia Social  pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O pesquisador esteve em Florianópolis na sexta-feira, 23, para o lançamento de seu livro A escola na ótica dos Ava Kaiowá: Impactos e interpretações indígenas – sua dissertação de mestrado – durante a IV Mostra de Artes Indígenas, realizada na UDESC. A obra, segundo o próprio Tonico, analisa a educação dos indígenas, mas não deixa de lado a cultura e os conflitos que acontecem há décadas na região do Cone Sul do estado do Mato Grosso do Sul.

A partir da década de 1970 quando os fazendeiros começam a expulsar os indígenas guarani-kaiowá do lugar é que começou o conflito que perdura até hoje. Antes não. Quando a formação de fazendas começou, por exemplo,os fazendeiros não expulsaram os indígenas, até mesmo seguraram eles ali para utilizar como trabalhadores na derrubada da mata. Mas em 70, em praticamente todo o Cone Sul de Mato Grosso do Sul não havia mais derrubada de mata, aí a pastagem se formou e é neste momento que os fazendeiros começaram a expulsar, e aí começaram os conflitos. Os indígenas resistiram, não queriam sair e aí os fazendeiros retiravam a força e  os deixavam perto da reserva que tinha sido criada.

Tonico nasceu nessa época, em meio aos conflitos que surgiram da não-adaptação dos indígenas ao ambiente das reservas. Lá as diferentes comunidades ficavam muito próximas umas das outras e existiam regras específicas e rígidas, que incluíam a existência de uma espécie de polícia repressiva durante a ditadura militar. Situações que eram estranhas aos indígenas e que fizeram com que muitos deles tentassem retornar à sua terra de origem, que no entanto, já tinha virado fazenda.

A alternativa encontrada por alguns dos guarani-kaiowá foi  viver nas margens da rodovia, numa situação que Tonico define como “pior que a dos sem-teto”. Já os que se arriscaram a voltar ao seu território original passaram a sofrer ataques de pistoleiros contratadas pelos fazendeiros da região.

Todos os ataques sempre foram violentos porque não é que o fazendeiro ataca, ele contrata uma equipe de pessoas da regiao que são pagas só pra isso mesmo,então essas pessoas são violentas, ligadas a um mundo de violência. o Ministério Público fala que em vários momentos esse pessoal que se coloca pra fazer esse tipo de trabalho muitas vezes entra bêbado, drogado, então a pessoa nao tem noção no momento que vai atacar. Quando mataram o cacique Nisio Gomes a pessoa estava totalmente drogada, chegou lá atirando nas crianças, nas mulheres. Já é uma pessoa praticante de coisa ruim, ligada ao mundo de violência, que quando  quando ataca utiliza essa violência de modo muito cruel, já que para ele é tudo brincadeira… chega lá e ataca as crianças, queima as casas,espanca e estupra as mulheres, e para ele é tudo muito normal. Ali na faixa de fronteira tem muitos indivíduos ligados ao mundo do tráfico de armas e de drogas, pessoas que estão na rua sem fazer nada. E os fazendeiros envolvem esse tipo de pessoa para praticar esse tipo de trabalho violento. 

Mas Tonico ressalta que os mandantes desses ataques sabem muito bem o que estão fazendo e agem de modo planejado. O pesquisador lembra que no caso da morte do cacique Nisio Gomes em 18 de novembro, os assassinos esconderam o corpo, medida usada costumeiramente para que não existam provas suficientes para a condenação. Além dos fazendeiros, advogados, lideres de sindicatos rurais, empresas de segurança privada e até mesmo funcionários da Funai também estão envolvidos nos ataques aos guarani-kaiowá.

Diante das ameaças dos pistoleiros e da dificuldade de regularização da terra, os indígenas divulgaram no dia 8 de outubro uma declaração de “morte coletiva”. Era uma carta dirigida ao governo e à Justiça, e foi através dela que boa parte do Brasil tomou conhecimento da situação em que os guarani-kaiowá estavam vivendo. Tonico ressalta que a carta deve ser vista sobretudo como um ato de resistência, mas lembra também que o suicídio é uma questão presente na cultura dos guarani-kaiowá.

O suicídio acontece desde 1980 com frequência. No momento em que aquelas famílias foram introduzidas na reserva a aplicação do regimento foi muito rígida. E muitos entraram em desespero, e  nesse contexto aconteceram suicídios em toda a parte. Ninguém conseguiu ainda explicar direito esses suicídios, o que ficou claro é que eles não aconteciam fora da reserva. Na década de 1960 por exemplo, não há registro de suicídios. Quando todo mundo foi pra reserva é que começou o suicídio. O contexto era de conflito e parece que ali não havia muita esperança. O guarani tem esse jeito, quando não quer reagir, se sente muito vulnerável, dominado se suicida. É quase cultural, uma família inteira  fica lá reprimida, sem força e sem condições de praticar sua cultura e seu jeito de ser, ela acaba fragmentada e instável e nesse contexto acontecem os suicídios. Desde 1989 a Funai tem 970 suicídios registrados oficialmente. São quase mil casos em vinte anos, e ainda tem muitos casos que não são registrados. 
Quanto a carta – que eu li com bastante atenção – não estava claro assim que era suicídio, mas era uma resistência. dava também uma ideia de “matem todos nós, nós estamos sofrendo mesmo, não temos mais opções boas nem perspectivas futuras, então vamos morrer…”
 A carta dos guarani-kaiowá foi escrita quando 30 famílias indígenas estavam prestes a ser despejadas de sua terra de origem. E não seria a primeira vez. Outros despejos já tinham acontecido e, segundo Tonico, com muita violência.

Quebraram braços das mulheres, crianças… e essa mesma comunidade não fazia nada. Eles chegavam lá e prendiam todo mundo, carregavam, jogavam em cima de um caminhão. As pessoas eram retiradas dali e jogadas lá fora, quebrados, com braços e pernas fraturados. E os indígenas não sabiam o que fazer. Só que agora quando receberam  mais uma vez  uma ordem de despejo, a carta foi escrita no sentido de que “agora nós não vamos sair daqui, nós vamos permanecer aqui e vamos morrer aqui. Nós não vamos sair daqui nem vivos nem mortos”.

No final de outubro a justiça suspendeu a liminar que determinava a retirada dos cerca 170 indígenas que vivem em acampamentos na região do Cone Sul. Porém, os guarani-kaiowá permanecem na mesma situação, à espera da demarcação das terras. A condições de vida continuam instáveis, com altas taxas de desnutrição infantil, alcoolismo e violência. Por enquanto o que mudou foi o conhecimento que o país tem desse problema, e desde então manifestações em defesa dos guarani-kaiowá vêm acontecendo em todo o Brasil.

Nos últimos tempos cidadãos de todos os lugares do Brasil começaram a perceber que realmente aquele povo está sofrendo muito, e não deveria. Isso choca as pessoas: “ué, mas como? esse pessoal não deveria ter uma vida assim, deveria ter uma vida mais digna”. Isso sensibiliza no sentido de que hoje todo cidadão sabe que esses indígenas merecem ter uma vida razoável, mais digna. Então ele se choca e começa a se mobilizar:”vamos cobrar o Estado, vamos cobrar o governo”.