A hora da escolha

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Universidade pública ou particular: gastos e qualidade de ensino pesam na decisão

Texto: Rafaela Blacutt ( rafaealablacutt@gmail.com ) e  Patricia Pamplona ( patipamplona3@gmail.com )
Colaboração: Manuela Lenzi ( lenzimanu@gmail.com )
Arte: Mariana Moreira ( rmoreira.mariana@gmail.com )

A qualidade do ensino é, sem dúvida, um fator determinante na hora de escolher em qual universidade estudar, mas este não é o único aspecto analisado. Muitos estudantes colocam na ponta do lápis os gastos que serão realizados e então podem optar por uma instituição pública ou particular. Muitas vezes, os jovens moram em cidades que possuem ensino superior privado e estudar em uma universidade pública longe de casa pode ficar mais caro.

Em setembro deste ano, a Folha de São Paulo e o Datafolha divulgaram o ranking de qualidade das universidades brasileiras. Entre as 12 primeiras colocações, não existe nenhuma instituição privada. No topo, está a Universidade de São Paulo (USP), seguida pelas federais de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Além das três primeiras colocadas, mais nove faculdades públicas estão entre as melhores do Brasil. A primeira instituição particular a aparecer no ranking, e só na 13ª posição, é a Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Por exemplo, morar fora para cursar uma faculdade na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com campi em Araranguá, Curitibanos, Florianópolis e Joinville, exigiria uma mudança que envolve gastos em aluguel e alimentação. Até que ponto é mais econômico cursar uma universidade pública e sair de casa, ao invés de estudar em uma particular e continuar sob o teto dos pais?

De acordo com a Imobiliária Giacomelli, da Grande Florianópolis, o custo de um apartamento de dois quartos, nas proximidades da UFSC (bairro Trindade, por exemplo), varia entre R$ 890 e R$ 1000. No entanto, os alunos ainda podem escolher se vão morar em repúblicas ou até dividir um quarto com um amigo. Mesmo com o custo, muitos inscritos para o Vestibular UFSC do último ano são de outros estados. Segundo a Comissão Permanente do Vestibular (Coperve), 34,75% não são residentes de Santa Catarina. Para engrossar as estatísticas, ainda há aqueles que saem de outros municípios catarinenses para os campi da UFSC. Uma pesquisa na turma de 2010 do curso de Jornalismo mostra que 56,66% dos alunos são de outras cidades e estados. Então, o que vale mais a pena?

Transferência

Mariana Mapelli, 23, é natural de Tubarão e morou em Florianópolis por seis anos. Atualmente, cursa a décima fase de Engenharia Química na UFSC – a estudante está morando em Lages devido ao estágio curricular – mas fez dois semestres desse mesmo curso na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). “O custo chegava a R$ 700 por mês, dependia do número de disciplinas.” Quanto a morar longe de casa, Mariana fala que é mais caro estudar em Florianópolis em uma universidade pública do que em uma particular morando na casa dos pais. Contudo, a estudante conta que veio para a UFSC devido à qualidade de ensino e ao diploma mais bem valorizado.

Entre 2007 e 2012, Mariana dividiu um apartamento no bairro Córrego Grande com uma amiga. O gasto médio mensal, incluindo aluguel, água, luz, telefone e internet, chegava a R$ 630 por morador. As refeições eram praticamente todas feitas em casa, com exceção de alguns lanches durante o dia. O valor do supermercado ficava entre R$ 250 e R$ 300 por mês. Com o transporte, Mariana não se preocupou. “Ia a pé para a aula devido à proximidade.” Para o estudo, o gasto era mínimo. A aluna utilizou os serviços e livros da Biblioteca Universitária (BU) e costumava pegar material emprestado de colegas.

Com o financiamento vindo 100% dos pais, Mariana pagava todas as contas em dia e evitava gastos desnecessários de energia. E a estudante mostra responsabilidade. “Não comprava e continuo não comprando praticamente nada a prazo. Utilizo cartão de crédito somente quando é realmente necessário.”

Medicina

Maíra Marconcini, 24, cursa a décima fase de Medicina na UFSC. Mora com o irmão em um apartamento de dois quartos no bairro Pantanal, e juntos eles gastam R$ 1300 com todas as despesas da moradia, exceto alimentação. Para se locomover até a universidade, a estudante utiliza carro próprio. “São mais ou menos R$ 150 por mês de combustível.” Mas o gasto com os estudos são baixos. Maíra utiliza os serviços da BU e como o curso de Medicina é integral, não sobra tempo para trabalhar ou estagiar.

Os pais da aluna sustentam todos os gastos para mantê-la na capital. A família avaliou o custo de estudar Medicina em uma universidade particular. Como a família mora em Timbó, próximo a Blumenau, a outra opção seria a Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), instituição privada, onde o curso pode passar de R$ 20 mil o semestre. “Vim principalmente por causa da qualidade do ensino. Mas o valor da faculdade particular foi a peça chave para eu querer estudar na UFSC.”

A situação de Bárbara Sakr, 26, estudante da 12ª fase de Medicina da UNISUL, mostra que realmente vale a pena sair de casa para estudar em uma pública. A mensalidade do curso é de R$ 4600. Como a aluna mora longe da universidade, tem mais gastos com alimentação e transporte. Em média, são R$ 300 de gasolina e R$ 250 de alimentação por mês. O custeio de Bárbara também vem do salário dos pais. O custo total fica em torno de R$ 5150, bem longe dos R$ 800 que Maíra gasta morando em Florianópolis.

Direito

A já formada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) Beatriz Lavor, 25, pagava R$ 500 no início da graduação, chegando a R$ 1000 no fim. Beatriz utilizava carro para ir à universidade todos os dias. Como a gasolina era dividida com o namorado, os gastos ficavam em torno de R$ 150 por mês para cada um. Mesmo que tivesse aula de manhã e à noite, almoçava todos os dias em casa. Seus custos com alimentação eram pequenos, sendo apenas R$ 10 diários para lanches. E quem bancava os R$ 1000 por mês eram seus pais. “Eu nunca usei o dinheiro do estágio para complementar”, conta Beatriz.

 

O futuro bacharel em Direito, Luan Brancher, 21, saiu há cinco anos de Concórdia, oeste catarinense, para estudar na UFSC. O aluno está na décima fase do curso e divide um apartamento de dois quartos em três pessoas. O aluguel e as contas saem R$ 650 por mês para cada morador. E como Luan não almoça em casa e nem no Restaurante Universitário, são R$ 300 em alimentação. A vantagem do aluno é não gastar com transporte, pois mora na Trindade, ao lado da UFSC. Apesar de estagiar, os pais pagam o aluguel e dão mais R$ 500 por mês para alimentação e outros gastos. Os casos de Luan e Beatriz mostram que, para estudar Direito, os valores são quase equivalentes, ficando em torno de R$ 1000 mensais.

Administração do dinheiro

Esses estudantes mexem com, no mínimo, R$ 1000 por mês, o que é uma grande responsabilidade. A maioria ganha tudo de uma vez e administra da maneira que acha melhor. Bárbara, por exemplo, recebe o dinheiro da mensalidade, gasolina e alimentação juntos e gerencia pelo extrato bancário. Já Luan tem o dinheiro do aluguel depositado na conta da imobiliária e os R$ 500 que recebe para comer distribui diariamente. Beatriz tem situação parecida, já que os valores da mensalidade e da gasolina eram pagos diretamente por sua mãe e o dos lanches recebia diariamente.

O professor Pedro Felipe de Abreu, 53, da Engenharia de Produção e Sistemas ministra a disciplina de Programação Econômico-Financeira e fala que o maior problema dos jovens para administrar as finanças está na falta de leitura. “O estudante está muito ligado na internet, não se preocupa com o que acontece no país e ao seu redor.” Outro motivo que o professor percebe é o fato de os pais não serem transparentes com a administração do lar. “Só falam das dificuldades e não das soluções.”

A influência em casa é muito importante. “É fundamental, para os jovens, saber como se faz um orçamento, organizar um planejamento. Os pais não explicam os porquês da falta de dinheiro, como a coisa funciona”, diz Abreu. É o que fala Luan, que não teve dificuldades para se adaptar porque o pai o orientou bastante. “Ele sempre tratou do assunto comigo e com os meus irmãos”, conta. No entanto, essa é uma exceção. O professor também fala que a maioria dos pais nunca conversou sobre finanças com os filhos. Outro problema que Abreu vê é a falta de senso de prioridade nos jovens, saber no que é mais importante gastar.

Sobre o crédito universitário, Abreu fala que é interessante, mas os jovens não estão preparados para isso. “[Eles] Não sabem coisas necessárias sobre financiamentos, juros de cartão de crédito.”

Para não se endividar 
Com cartão de crédito e débito, contas universitárias e facilidade de adquirir empréstimos em bancos, os jovens têm que tomar cuidado para não se endividarem. Por último, Abreu fala o que pensa que tem de ser as prioridades dos universitários. “Estudos, alimentação, transporte e lazer em geral. Nessa ordem!”