Número insuficiente de intérpretes de Libras gera protesto na UFSC

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Texto: Merlim Malacoski (merlimiriane@gmail.com)
Fotos: Brenda Thomé (brendathome@gmail.com)

A UFSC é considerada pioneira na inclusão de estudantes surdos, mas enfrenta agora um problema para garantir a permanência desses alunos: faltam intérpretes de Libras. Com o intuito de chamar a atenção para essa questão, alunos e professores fazem hoje,  24 de abril, a mobilização a “Reflexão sobre a Língua de Sinais Brasileira e o Planejamento Linguístico na UFSC”. A data escolhida marca os 11 anos da aprovação da Lei Nº 10.436, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão. “Percebemos que esse era o momento de celebrar e agradecer o espaço que conquistamos, mas também de reivindicar a acessibilidade que está prevista na lei, mas que precisa ser garantida”, explica a mestranda Simone Gonçalves, uma das organizadoras do evento.

A mobilização começou às 9h30, em frente ao CCE, com o Hino Nacional em língua de sinais (assista o video abaixo). Durante o dia serão realizados debates sobre a Lei de Libras e sobre os avanços e retrocessos na universidade, além de apresentações culturais da comunidade surda. A tarde, os participantes irão até a reitoria para entregar um documento em que pedem melhorias de acessibilidade na UFSC.

A principal reivindicação é a contratação de profissionais que atuem na intermediação entre surdos e ouvintes. Sem o número necessário de intérpretes, o trabalho tem sido feito de modo voluntário por alunos e professores, mas de acordo com a professora Ronice Quadros, isso não é suficiente para atender a todos os surdos que entram na universidade. A mestranda Simone Gonçalves ressalta que os problemas de inclusão não ficam apenas na sala de aula: “não há intérprete e tradutor no Hospital Universitário, por exemplo. Como o surdo poderá ser atendido?”

Atualmente a universidade tem sete servidores que atuam na função de tradutor e intérprete de Libras, número menor que os doze previstos inicialmente no projeto do Reuni para a área. A prioridade na contratação é atender a graduação em Letras Libras, mas o curso não é o único que precisa desse profissional. “Tinhámos um aluno surdo em Arquivologia, mas ele trancou o curso porque estava sem intérprete desde o ano passado”, conta Ronice. Outro caso que preocupa a professora é de um estudante surdo em Araranguá: “dificilmente um intérprete será mandado para um campus que só tem um aluno que precisa do acompanhamento”.

A falta de intérpretes também afeta a pós-graduação. A Pós em Linguística tem 14 alunos surdos e a em Estudos da Tradução tem 5; nesses cursos alguns deles desistem de disciplinas pela dificuldade em acompanhar os conteúdos sem a intermediação de um intérprete. “Já temos mais de um mês de aula e nenhuma solução”  diz o mestrando Vilmar Fernando. Já para o doutorando Junior Bueno o problema é o inverso. Ele é ouvinte e assiste aulas do curso de Libras sem saber a língua brasileira de sinais. “Minha pesquisa é justamente sobre o acesso de surdos na graduação e na pós-graduação, mas ainda não aprendi libras. Queria interagir com meus colegas, mas sem intérprete não tem como aproveitar essa experiência”.

Com os professores a situação não é diferente. Dos docentes do curso de Libras, quatro contratados e quatro substitutos são surdos e, segundo a professora Ronice, as duas vagas abertas para concurso devem ser preenchidas por professores surdos. “Para eles é frequente a dificuldade em participar de reuniões de colegiado ou de centro”.