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Especial Dia da Consciência Negra – Entendendo o racismo

Written by cotidiano on . Posted in Reportagens

 

 

 

Em novembro de 2017, um vídeo com cenas de bastidores de uma passagem de William Waack e Paulo Sotero para o Jornal da Globo se tornou público. O repórter e também âncora do mesmo jornal, aparece reclamando de pessoas que estão passando pela rua buzinando e finaliza seus comentários com “Sabe de quem é isso né? Isso é coisa de preto” e ri. Paulo Sotero acompanha o pensamento com seguidos “sim”.

Maria Júlia Coutinho, apresentadora de TV,  é vítima de preconceito racial nas redes sociais. Assim como Taís Araújo, Preta Gil, Thiaguinho, Negra Li, Seu Jorge, Glória Maria, Nego do Borel e até Vinícius Romão que foi preso por ser confundido. A lista é imensa, e todo dia cresce. Até aqui, apenas pessoas públicas. Mas a matriz do problema, é toda população negra brasileira -frisando que é a MAIORIA no país- que diariamente escuta absurdos sobre sua cor de pele, seu corpo, seu cabelo, sua religião e cultura.

Pensar em preconceito racial, é primeiro pensar em desigualdade racial. Tendo em vista que 53% da população brasileira é formada por negros, a divisão de índices deveria ser proporcional para negros e brancos, mas na prática, isso está longe de ser real.  

Segundo dados extraídos de fontes como o IBGE e alguns vídeos do canal HIDRA- Cabeças Pensantes, a educação pode ser dada como exemplo. A chance de um negro ser analfabeto no país, é 5 vezes maior do que um branco. A cada 4 pessoas no Ensino Superior, apenas 1 é negra. O impacto disso só aumenta quando pensamos fora da sala de aula. 70% das pessoas que vivem em extrema pobreza são negras, no país, 80% da população de maior renda, é branca. Todos esses dados refletem no nível de qualidade de vida. Por exemplo, 70% das pessoas brancas tem uma máquina de lavar em casa mais da metade dos domicílios chefiados por uma pessoa negra (53,3%) não têm uma.

O mesmo vale para a internet. Mais de 50% dos negros não possuem nenhum tipo de acesso. Quase 40 não possuem esgoto e 70% dependem do sistema de saúde público. A cor da sua pele determina ainda, o seu tempo de vida. Em dez anos, o número de homicídios contra mulheres brancas diminui, enquanto o índice para mulheres negras, só aumenta. E a morte não é feminina. A cada 12 minutos uma pessoa negra morre no Brasil. Também são os negros que mais morrem em operações policiais e ocupam maior parte da população carcerária.

E pode ser difícil para a comunidade negra mudar isso por dentro. Porque essas pessoas não são representadas nem no judiciário, legislativo e muito menos executivo. Essa defasagem não é de hoje, historicamente é ultrapassado em representatividade. Foi o último país ocidental a abolir a escravidão.

A maioria das pessoas não foram criadas para pensar o racismo como algo que precisa ser combatido. O que fazer quando alguém fala que você não pode ficar em determinado local por ser negro? Ou quando te tratam mal por causa da cor da sua pele? Simplesmente aceitar o que  falam, e ainda pensar que têm razão quando expressam seus pensamentos racistas, e que o melhor a fazer é ficar de boca fechada e não ter nenhum tipo de reação?

Quando acontece um caso de racismo no primeiro momento você realmente não tem nenhum tipo de reação. Você pensa: isso realmente está acontecendo comigo? deve ser coisa da minha cabeça. E começa a ver a situação de uma forma que parece te destruir por dentro, e que coloca toda a tua humanidade no lixo.

Todas essas questões certamente não são pensadas por pessoas que nunca passaram por algo do tipo, e cabe até o clichê ‘’só quem passou por isso, sabe’’.

Quando somos crianças, poucas são as percepções do que é ser negro. Como entender o porquê de não ser aceito em determinado lugar? Como ouvir uma ofensa relacionada a cor da sua pele e não desejar ter nascido branco? É extremamente difícil começar a entender isso, e se você não tem uma instrução familiar que te ensine a lidar e a entender o racismo como um problema com os outros, e não com você, o entendimento fica muito mais difícil. Essa mesma criança que não teve alguém para explicar o que é o racismo, quando cresce e se depara com um olhar diferente, ou com uma oportunidade negada, começa a ser atingida de uma forma que faz com que ela se sinta culpada pelo o que acontece, que faz com que ela se sinta subalterno em relação às outras pessoas.

O processo de se entender como negro e de principalmente aceitar que é negro e que não tem nada de errado nisso, requer muito aprendizado e consciência. Aprendizado, pra partimos do fato histórico principal: Os negros que foram trazidos da África para serem escravizados, eram vistos como animais. Lhes era negado qualquer direito, inclusive a liberdade. Após o fim da escravidão, esses mesmos negros continuaram sendo vistos da mesma forma e não lhes foi concedido nenhum tipo de direito, por toda a humilhação e trabalhos forçados.. Por mais que tivessem o direito à liberdade, muitas oportunidades lhes eram negadas, e o fim da escravidão de um lado foi um avanço, e do outro foi algo que não adiantou em nada na vida deles. Muitos desses escravos que tinham recebido sua carta de alforria,  voltaram aos mesmos locais em que eram escravizados para pedir o ‘’emprego’’ de volta, em troca de comida e local para morar (mesmo que precário), e outros tentavam outras formas de conseguir sobreviver.

Não foi implantado nenhum tipo de lei para o amparo dessas pessoas, o que acabou reforçando a imagem que era vista do negro: subalterno, que só serve para trabalhos duros, e que não é igual aos brancos.

Seguindo esta linha vem o racismo, e tudo o que os negros escravos passaram lá atrás, ainda é visto (mesmo que de forma mascarada) nos dias de hoje.

É preciso ter a consciência de que tudo que aconteceu no passado, e que se reflete nos dias atuais, é de extrema ignorância da parte das pessoas que agem desta forma e disseminam isso.

Não é preciso dedicar muito tempo para entender o racismo com um problema estrutural do sistema, e que não falar do racismo, não faz com que ele não exista, mas sim, que ele fique escondido e não mostre a quantidade de injustiças que são cometidas diariamente com a população negra.

Falar sobre racismo abre os olhos de muita gente para o que ainda está errado, para o que ainda precisa mudar e principalmente faz com que o próprio negro entenda que o lugar dele amento, e ter referências ajuda e muito, para que o negro tenha uma imagem diferente do que lhe é mostrado desde criança. Ter referências que faça o negro entender toda a contribuição dada em diversas vertentes, principalmente cultural. Para que não vejam só portas fechadas e oportunidades negadas, e sim um povo que tem uma cultura extremamente valiosa e que ajudou a construir o Brasil.

Entender que abaixar a cabeça e aceitar o que falam, não é o caminho! É preciso enfrentar o racismo em todas as vertentes, e ver que as políticas de ações afirmativas não são um favor ou um privilégio, e sim o pagamento de uma dívida antiga, que levará muito tempo para ser quitada.

É preciso entender que ser negro, não é impedimento para frequentar determinados locais, de fazer determinadas coisas, ser negro é carregar uma história, uma história que muitas vezes não é contada, mas que existe e que não é só baseada na escravidão.

Há muito da cultura negra que foi trazida pelos escravos, até porque antes disso eles tinham uma vida, e o cultivo dessa cultura e desses costumes, é a prova de que mesmo com toda a injustiça do passado, coisas importantes conseguiram sobreviver, resistindo à toda discriminação que ainda é disseminada.