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Um recomeço na escola

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Jovens e adultos que não concluíram o ensino básico retornam ao ambiente escolar com perspectivas para o futuro*

*Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição IV, ministrada pela Profª. Dra. Maria Terezinha da Silva, em 2018.1

A autoestima ao chegar na Educação de Jovens e Adultos (EJA) não foi um problema para Eduarda Vieira, hoje com 22 anos. Com notas boas nos tempos de escola, ela nunca se sentiu inferior. As brigas e o bullying que sofreu é que a afastaram do ambiente escolar. Aos 14 anos, parou de frequentar o colégio, depois de tentar por três anos concluir a 6ª série. O abandono foi contra a vontade da mãe, que não conseguia obrigar a filha a continuar, pois trabalhava em dois empregos e passava a maior parte do dia fora de casa.

  O caso de Eduarda se aproxima da realidade de uma parte dos jovens de 15 a 17 anos no Brasil. Desse grupo, 15% não estão matriculados na escola, segundo o estudo “Políticas Públicas para a Redução do Abandono e da Evasão Escolar de Jovens”, publicado em outubro de 2017 e liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros. Dos que se matriculam, quase 8% desistem antes do final do ano letivo, conforme os dados do IBGE e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Entre os fatores apontados para evasão estão: déficit na aprendizagem, falta de percepção da importância dos estudos, qualidade do ensino e clima não acolhedor no ambiente escolar. Esses fatores estão inseridos em contextos que envolvem, por exemplo: violência familiar, mercado de trabalho, gravidez precoce e pobreza.

  A EJA é uma modalidade da educação básica que oferece escolarização para quem não teve acesso ou não deu continuidade aos estudos no ensino regular. Trata-se de um direito garantido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) e uma forma de reparar questões sociais, como a exclusão social. Segundo o Censo Escolar de 2017, o Brasil contava com quase 3,6 milhões de estudantes matriculados na Educação de Jovens e Adultos. Em Santa Catarina, eram 76.146 alunos divididos entre alfabetização, ensino fundamental, médio e educação profissionalizante.

 

Eduarda mostra o certificado de conclusão do ensino médio que conseguiu ao fazer o ENEM. Foto: Ana Ritti.

 

 A migração de Eduarda Vieira para a EJA começou aos 15 anos. Deslocada nessa modalidade e sem entender como funcionava, se afastou das aulas e retornou somente aos 20 anos. No período longe da escola, percebeu que a falta de formação era um problema não só para seu sonho de fazer um curso superior como também para conseguir um trabalho. “Em uma entrevista de emprego, quando chegou na parte da escolaridade, ele perguntou se eu sabia ler e escrever direitinho. Fiquei bem triste, constrangida”, confessa.
  A situação vivida por Eduarda reforça o que diz Maria Herminia Lage Fernandes Laffin, coordenadora e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em EJA (EPEJA): mais do que oferecer uma certificação escolar em curto prazo, a EJA é também uma forma de diminuir a desigualdade social através da educação. E foi por essa modalidade de ensino que a estudante se viu motivada a mudar sua realidade. Matriculada no segundo segmento da Educação de Jovens e Adultos, equivalente aos últimos anos do ensino fundamental, ela desenvolveu as pesquisas necessárias para completar a carga horária exigida para conclusão. Ao mesmo tempo, com a ajuda das professoras, estudava também conteúdos para a prova do ENEM. “Queria fazer a prova para treinar, ver como era. Não tinha muitas perspectivas pois sabia que não tinha estudado aquelas matérias nas aulas”, relembra. Mesmo insegura, conseguiu as notas para a certificação do Ensino Médio através do ENEM 2016, última edição do Exame Nacional a oferecer o diploma.
  O sonho de colocar no currículo a formação em algum curso ainda é um objetivo para Eduarda. Como atendente de telemarketing, ela se divide entre o emprego e os estudos para o ENEM, em um cursinho pré-vestibular online. A rotina cansativa e a dificuldade com os conteúdos são obstáculos que acabam desanimando-a, mas a confiança continua viva. “Já fiz duas provas e consegui melhorar minhas notas. Espero esse ano conseguir nota suficiente para entrar na universidade”, conta a aspirante a caloura.

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Assim como Eduarda, Fabricio*, de 23 anos, também busca uma formação superior ou profissionalizante. Por falta de interesse, parou de frequentar a escola na 6ª série e retornou mais tarde na Educação de Jovens e Adultos. “Eu comecei na EJA com 16 anos, mas me envolvi em algumas brigas e acabei expulso”, conta bem humorado. Ele voltou à modalidade aos 21 anos e mais dedicado concluiu o ensino fundamental. Hoje, está prestes a terminar os estudos no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), voltado para a formação no ensino médio, em um colégio no norte da ilha, perto de seu trabalho. Como ajudante em uma marcenaria e sem carteira assinada, o estudante reconhece que a falta de escolarização já o levaram para empregos precários e com baixa remuneração. Através dos estudos, o rapaz busca melhorar sua realidade e construir uma carreira. “Não sei ainda qual curso quero fazer, mas acho que qualquer um seria legal. Todo conhecimento é válido”.

  A busca por melhores condições de trabalho também motivou Suelen*, de 20 anos, a voltar à escola. “Por não ter terminado os estudos tenho dificuldade para arrumar um trabalho”, conta ela, ao lembrar dos empregos temporários e comentários que questionam seu ensino fundamental incompleto. O afastamento das aulas aconteceu aos 13 anos, na 6ª série, pela desmotivação ao ser transferida para um colégio longe de casa. No ano seguinte, em 2013, a gravidez mudou ainda mais a vida da estudante, pois ficou sete anos longe do ambiente escolar.

   Em 2013, Suelen fez parte do grupo de 414.105 jovens brasileiras de 15 a 19 anos que foram mães. Dessas, 55,4% deixaram a escola antes de concluir o ensino fundamental ou ingressar no ensino médio, segundo o levantamento da ONG Todos Pela Educação, divulgado em 2015.  

  As responsabilidades como mãe e a falta de dinheiro acabam sendo uma dificuldade para Suelen, que frequenta a EJA desde o início do ano. “São as duas maiores dificuldades: o dinheiro pra passagem [de ônibus] e com quem deixar meu filho”, conta, ao justificar as eventuais faltas. Apesar das dificuldades, ela está entusiasmada com as aulas e pretende concluir os estudos em dois anos.

*nomes modificados a pedido dos entrevistados

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Sinopse Estatística da Educação Básica 2017. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/sinopses-estatisticas-da-educação-básica>

 

  Suelen, Fabrício e Eduarda fazem parte do processo de juvenilização da EJA. Nos últimos anos, os estudantes começam na Educação de Jovens e Adultos cada vez mais novos. A pesquisadora Maria Hermínia explica que os jovens têm a escola como espaço de socialização, mas muitas vezes encontram isso em outras atividades, em outros ambiente. Ela também aponta que alunos com dificuldades de relacionamento e aprendizado são encaminhados à EJA, assim como os que vêm de sucessivas reprovações.
 A cara juvenil da modalidade é perceptível em Florianópolis. Segundo dados do último Censo Escolar, o grupo de 15 a 24 anos ocupa cerca de 62% do total de matrículas na EJA. Está acima da média estadual e nacional para o grupo, que é de 53% e 52%, respectivamente. (gráfico acima)

 

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O ambiente escolar para o idoso

  Meio-dia, o sino da Paróquia Santíssima Trindade bate e indica o fim da aula no Núcleo de Estudos da Terceira Idade da UFSC (NETI). Mas naquela terça-feira, dia 8 de maio, as salas vazias indicavam que não era um dia comum. As atividades nas EJA’s de Florianópolis não aconteciam desde o dia 11 de abril com a greve dos servidores municipais – que eram contrários ao projeto de lei que permite a contratação de Organizações Sociais para gerenciar unidades de saúde e de educação. Conhecido por oferecer atividades para o público idoso, o NETI começou em 2007 o projeto Leitura e Escrita para alfabetização de pessoas maiores de 50 anos. Dois anos depois, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, a Educação de Jovens e Adultos também passou a fazer parte da rotina do Núcleo. Em meio ao silêncio dos corredores, também explicado pelo horário de almoço, a coordenadora do NETI, Jordelina Schier, vai ao encontro das professoras Marilúcia Marques e Regina Seabra em uma das salas. Antes de se despedir, Schier recebe o apelo das educadoras para chamar os alunos a participar das atividades do Núcleo, preocupadas porque alguns poderiam não retornar às aulas. A rotina escolar voltaria à normalidade três dias depois, no dia 11 de maio, com o fim da greve.

  No dia a dia, as professoras encontram desafios em relação à autoconfiança das pessoas. “Muitos chegam e falam ‘mas eu não sei nada’, e eu fico ‘como assim você não sabe nada?’ Você sabe muito!’”, conta Seabra, enquanto mostra o áudio de uma aluna agradecendo o incentivo para que ela escrevesse e tivesse orgulho de sua caligrafia, já que isso era um bloqueio para a conclusão das atividades. Com o objetivo de reconstruir a autoestima, o acolhimento é uma das principais formas de receber e manter o público na escola. Mais flexível, a EJA se adapta aos diversos conhecimentos que cada indivíduo traz em sua trajetória. Para trabalhar a alfabetização, que não é uma realidade para 19,3% dos idosos no Brasil, o primeiro segmento da EJA traz temas e textos próximos da realidade de cada indivíduo. Já no segundo segmento, a pesquisa é o princípio educativo. Nela, os estudantes escolhem temas variados para pesquisar e desenvolver a prática textual, argumentativa e descritiva.

  Confiantes, os alunos do NETI queriam ir além da alfabetização e conclusão do ensino fundamental. Em 2015, o Núcleo passou a oferecer também o CEJA, para a conclusão do ensino médio. A primeira turma completou a modalidade no ano passado, com 10 formandos. Segundo as professoras, é perceptível a vontade de seguir o aprendizado e ser parte da sociedade. A estrutura dentro da universidade é um ponto forte. Lá, os aprendizes conseguem participar de atividades de extensão oferecidos pela UFSC com o NETI. Os cursos abrangem áreas variadas, com turmas de idiomas, psicologia, história, cultura, entre outras 17 opções oferecidas neste semestre. Além disso, muitos demonstram vontade de cursar o ensino superior. É o caso de uma aluna que se alfabetizou depois dos 50 anos, concluiu EJA e CEJA e gostaria de cursar Letras na UFSC. “Ela escreve muito bem, mas já era uma poetisa nata antes de escrever, tem um caderno com umas 200 poesias”, relembram as professoras. “Em janeiro ela estava em Portugal, com um professor aqui do NETI que organiza excursões”, conta a professora Seabra, destacando o empoderamento e a liberdade que a educação proporciona.

 

O ensino superior como próximo passo

  Ivileti Berthier Baggio, 45, não lembra exatamente se foi em 2013 ou 2014 que resolveu voltar aos estudos. Após a formação no magistério e a dedicação ao trabalho e à família, ela começou um cursinho pré-vestibular de curta duração. A aprovação veio em 2015, quando se tornou caloura no curso de Pedagogia da UFSC. “Quando vi meu nome na lista de aprovados nem acreditei. Por muitas vezes achei que eu não era capaz de passar no vestibular, justamente pela minha trajetória escolar”, conta.

 A autoestima abalada veio da formação precária na EJA, no início dos anos 90, quando a modalidade ainda era conhecida como supletivo. A acadêmica conta que recebeu apostilas para estudar em casa e o encontro com professores acontecia apenas uma vez por semana, no salão paroquial da comunidade. “Vou confessar que adquiri um certificado sem o mínimo de conhecimento, pois trabalhava o dia todo na roça e quando chegava à noite estava tão cansada que não conseguia estudar”, relembra ela sobre sua realidade e dos demais estudantes da comunidade de Invernada, na cidade de Grão Pará, no sul catarinense.

  Naquela época, a Escola Municipal Rural Invernada oferecia apenas as séries iniciais do ensino fundamental. Para continuar os estudos, as crianças precisavam ir para a cidade, mas nem todos tinham condições. Como foi o caso de Ivileti, que precisou parar os estudos aos 9 anos para trabalhar como babá e ajudar a família na lavoura. Atualmente, 0,96% das matrículas em EJA’s no Estado são de alunos de áreas rurais, em 18 municípios catarinenses.

  A formação no ensino médio veio mais tarde, quando Ivileti trabalhava como babá na casa de uma família na capital. Nesse período, ela passou a sentir falta de noções escolares básicas, como escrever e interpretar textos. Aos 17 anos, chegou ao magistério, área em que trabalhou até decidir focar na universidade. No início da graduação, a futura pedagoga lembra que se julgou inferior por ter dificuldades nos conteúdos, até perceber que os colegas passavam pela mesma situação, independente da trajetória escolar. Hoje na sexta fase do curso e mais confiante, Ivileti trabalha em seu projeto de TCC, que investiga a escolarização dos funcionários terceirizados da UFSC, e se orgulha do que conquistou através da educação. “Hoje eu sou uma pessoa realizada, com mais conhecimento. Com estudos, a gente viaja pra outro país, conhece, se empodera.”

  Trabalhar em sala de aula também era uma vontade da professora Janaina Jascone, 35 anos. Mas ao longo de sua trajetória, ela percebeu que o caminho até a faculdade não era fácil e a profissão pouco valorizada. Desanimada, se afastou da escola aos 17 anos, após uma reprovação no segundo ano do ensino médio. Assim como Janaina, 11,2% dos estudantes de ensino médio deixaram o colégio no último ano, segundo o Censo Escolar.  

  O CEJA foi o primeiro passo em busca de melhores condições de emprego e Janaína conta que apesar de ter aprendido bastante, teve dificuldades. “Demorei mais do que devia [para me formar] por falta de disciplina. Não tinha mais o hábito do estudo e trabalhava em indústria. Acabava ficando muito cansada da rotina de produção”, relata a acadêmica, que voltou aos estudos com 21 anos e terminou aos 23.

  A ideia do ensino superior surgiu depois de um tempo, aos 29 anos, como forma de realizar um sonho antigo e melhorar o salário, já que trabalhava como telemarketing na época. Com a remuneração do emprego, Janaína investiu no curso de Geografia em uma instituição privada, que era realizado à distância. Logo no primeiro ano, ela começou a dar aulas e percebeu que estava no lugar certo. “A experiência de lecionar é maravilhosa, foi sem dúvida a melhor escolha que fiz na vida”, conta a professora, que se forma este ano.

  Assim como Janaína, sua colega de quarto, Luciana Diniz, 29, também tem uma trajetória na EJA. A estudante de Serviço Social da UFSC chegou à universidade com os conhecimentos adquiridos na Educação de Jovens e Adultos, onde começou a estudar aos 21 anos. Diferente do ensino regular, Luciana encontrou na modalidade esperança e oportunidades. “Quando a gente abandona os estudos e volta, a gente tem a sensação de ser novo outra vez, de ser jovem outra vez e de aprender [outra vez] e isso é maravilhoso!”, destaca.  

  Luciana reconhece que a rotina dividida entre trabalho e estudos era cansativa, mas a busca por uma formação superior a entusiasmou. Motivada por um professor, escolheu prestar o vestibular para Geografia. Aprovada na primeira tentativa, começou a frequentar as aulas até perceber que sua paixão estava em outra área, a social. Em seu segundo curso universitário, a acadêmica se orgulha de sua trajetória e destaca que não há tempo ou idade certos para buscar os objetivos. “As coisas na vida às vezes demoram um pouco, mas adiar, não conseguir na primeira, tudo isso pode. O que a gente não pode é desistir do que a gente nasceu pra ser, do que a gente quer ser, dos sonhos que a gente tem”.

  Para Ivileti, Janaína e Luciana, ingressar na universidade foi um sonho que se tornou realidade. Assim como para elas, a formação superior é uma meta para muitos estudantes que passam pela Educação de Jovens e Adultos, mas não é uma ideia predominante. Alguns estão ali por exigência do emprego, outros buscam um aprendizado para poder viajar ou até para ler a Bíblia, conta a pesquisadora Maria Hermínia. Para o público da EJA, o recomeço na escola é uma chance de buscar os objetivos e uma forma de empoderamento pessoal através da educação.