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Universitárias mães se organizam em coletivo na luta por respeito e visibilidade na UFSC

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Reportagem por Mariana Machado (mar071999@gmail.com)

 

Ir à aula, participar de projetos de extensão, estagiar, fazer os trabalhos, estudar para as provas e ter uma vida social fazem parte da rotina de um universitário, ainda mais quando se trata de uma universidade pública. O que já não é fácil para muito, quando o estudante é uma mãe, as dificuldades para realizar as mais simples atividades fica ainda maiores. Imagine ter que dar conta de todos os afazeres e ainda cuidar de uma criança, sem o espaço e apoio adequados.

Luana Gonsaga (27) é estudante de psicologia na UFSC e mãe de Pedro (6). Ela engravidou no final da sua graduação em Artes Cênicas, em uma universidade particular no Estado de São Paulo, e assim começou a perceber o que significa ser uma mãe universitária. A diretora de sua faculdade a proibiu de entrar na sala amamentando, sob a justificativa de que se a deixasse entrar, teria que deixar todas. “Achei esquisito mas não falei nada e nem entrei para aula, fui para casa. Deixei passar, mas depois de um tempo pensei: por que não deixar todas?”, conta.

Luana encontrou apoio junto às mães e estudantes de São Paulo, formando um grupo terapêutico e de apoio. Quando se mudou para Florianópolis, decidiu cursar Psicologia com o intuito de pesquisar sobre o tema e ajudar outras mães. Durante o curso, se deparou com outras duas mães que eram tratadas de modos diferentes. Uma, de São Paulo, que levava o filho para as aulas todos os dias, e a outra, de Garopaba, que deixava a criança com a família.

“Quando eu me deparei com essas duas colegas de curso, eu vi como as pessoas encaram o que é uma boa e uma má maternidade. E a boa maternidade era aquela invisível. As duas eram mães, mas a que não precisava trazer o filho era muito mais acolhida quando precisava do que aquela que precisava trazer o filho todos os dias, tanto é que ela nem ficou no curso.”

Em 2017, depois de conhecer o cenário vivido pelas mães na UFSC, ela entrou no movimento estudantil. Escutou que era uma pauta muito específica e que o movimento de pais e mães deveria construir suas reivindicações e lutar por elas, e depois, o movimento estudantil iria apoiar e se envolver. Não foi o caso. Uma aluna foi impedida de entrar com a filha no LABUFSC e outras foram impedidas de entrar no Restaurante Universitário. “Temos o exemplo de uma mãe que fazia marmita lá dentro do RU, levava um potinho, enchia de comida e ia para fora, sentava na grama e alimentava os filhos ali”, explica. Ela e outras mães se juntaram e conseguiram uma normativa, na qual os filhos de estudantes isentas poderiam entrar no RU.

E no dia das mães desse mesmo ano, nasceu o Coletivo Mãestudantes UFSC. “Temos que fundar um coletivo, construir as nossas pautas, fundamentar politicamente, produzir conhecimento e avançar. Não dá mais para passar por esse tipo de situação. E ali, a gente começou a tentar se reunir para construir as nossas pautas, que são várias, mas basicamente elas giram em torno de alguns eixos: permanência, pertencimento e reconhecimento.”

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Confira mais informações sobre o coletivo na entrevista com Luana.

Quais são as especificidades de cada eixo?

Estão todos interligados. Reconhecimento no sentido de que as pessoas entendam que nós existimos aqui na universidade, que não é porque a gente é mulher que a gente deveria escolher entre ser mãe e ser cientista. E mais do que isso, não é o quanto apenas nós mães ganhamos por estarmos aqui numa universidade pública, mas o quanto a universidade é enriquecida quando tem uma diversidade de pessoas, inclusive mães. Pertencimento no sentido de que as políticas de permanência sejam feitas e efetivadas de forma que a gente se sinta de fato pertencente a esse espaço, que a gente não se sinta intrusa, deslocada, não seja sempre uma acusação quando nos olham porque a gente tem filho. E as políticas de permanência não só no âmbito material, como fraldários em todos os banheiros, não é só no centro, mas todos os banheiros que a gente entrar tem que ter fraldário, sala de amamentação e de ordenha. Qualquer outro espaço que a criança possa circular, que seja de fato possível, principalmente espaços em comum, como a BU, LABUFSC, RU etc.

Vocês têm alguma política de longo prazo?

Um espaço de contraturno para as crianças é o principal. Entende-se que estar numa universidade pública não é só vir para a aula, é fazer pesquisa, é fazer extensão, é poder ir para uma festa, poder ter integração, é poder ver um cine debate. E quando o horário coincide com o horário que a criança está na escola, beleza, e quando não? E quando a mãe estuda de manhã, a criança tá na escola de manhã, mas a tarde a mãe tem PIBIC, tem monitoria? Então, precisa ter um espaço de contraturno aqui para isso. Não só esses aspectos materiais, mas também subjetivos, a forma como somos tratadas pelos professores, pelos servidores, os técnicos, pelos terceirizados, de nos impedir de estar nos espaços ou até permitir que a gente esteja nos espaços, mas sempre num tom passivo-agressivo, numa violência que é institucional e que está presente ali.

O Coletivo já teve algum retorno da reitoria?

A gente foi reivindicando e a reitoria em maio de 2018 estabeleceu uma portaria que nomeava uma comissão para política de permanência materna. Em novembro, nos reunimos com essa comissão e finalizamos essa política de permanência que agora precisa passar pelo CUn, que é a parte mais difícil. Transformar essa política em pauta do CUn para que eles discutam e a aprovem. Nesse momento que a gente começou a discutir essa política, nós recebemos uma chuva de pedidos de outras universidades tanto de estudantes quanto da própria administração.