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Primeira travesti a obter título de doutora no Brasil profere aula inaugural na UFSC

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Texto:
Malena Wilbert – malenawilbert@gmail.com

Terça-feira, a UFSC  recebeu a professora Luma Nogueira, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB),  para ministrar uma aula magna que marca o início das atividades letivas desse semestre, com o tema “Moral, código (i)moral e (i)moralidade dos costumes: a relação entre sujeitos e normas em épocas e lugares diferentes”. Luma Nogueira de Andrade é uma referência nos estudos de Gênero e Sexualidade no país. Pesquisadora do Núcleo de Políticas de Gênero da UNILAB e personalidade ativa nos movimentos sociais, mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, é a primeira travesti brasileira a receber o título de doutora, pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Na aula, transmitida online pelo site da UFSC, foram expostos exemplos de como a moral e a imoralidade são moldáveis às épocas e como grupos sociais distintos as organizam. A professora também fez uma reflexão sobre como a cultura influencia nossos gostos e preconceitos.

Luma é um exemplo de resistência do grupo social brasileiro mais sujeito à evasão escolar, com índices na casa dos 73%, segundo a Articulação Nacional dos Travestis, Transexuais e Transgêneros (Antra), realidade que é imposta pela intolerância sofrida nesse ambiente.  O medo de ser agredido – o Brasil é o país com maior número de assassinatos de  transexuais no mundo -, o constrangimento de ter que usar o banheiro do gênero oposto, entre outras violências, faz com que essas pessoas abandonem seus estudos. O resultado disso é refletido em outros números: 90% das travestis brasileiras trabalham como prostitutas. Sem opções, expulsas do ambiente escolar e muitas vezes rejeitadas pelas famílias, essas mulheres acabam na prostituição.

Luma diz que na universidade não foi diferente. “Sempre existem sujeitos que não estão abertos a novas formas de ser. Até pouco tempo atrás, seria impensável eu  estar em uma universidade. Eu  resisti e desafiei  essa ausência de espaço”.

Sua história é inspiração para outras pessoas em situação semelhante. Maria Zanela, uma das doze transexuais que estudam na UFSC entre mais de 30 mil alunos, sonha em também seguir carreira acadêmica. Se a intolerância parece intimidadora, assistir uma mulher travesti ser aplaudida de  pé por alunos e professores em uma universidade federal é encorajador.