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1° ENTRE OLHARES Florianópolis

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Uma experiência de conexão humana

Texto Gabriel Volinger e Daiane Nora / Fotos e video: Daiane Nora

Em pleno sábado de sol na Lagoa da Conceição uma energia diferente se instaurou na Ponta do Pitoco. Até mesmo um arco íris invertido se manifestou no céu e tornou a tarde ainda mais extraordinária. Quem passava pelo local sem saber o que estava acontecendo, assistia curioso à dinâmica: pela grama, às margens da Lagoa, as pessoas sentavam-se em silêncio e, frente à frente, se encaravam fixamente nos olhos. Apenas isso. Olhos nos olhos era o todo necessário para a experiência. Uma das participantes do evento, Dieniffer Weber, tenta contar o que aconteceu: “Senti algo muito forte, mas eu simplesmente não consigo explicar”.

A ação foi realizada pelo “Coletivo Amor em Movimento”, voluntários que buscam a ampliação da consciência por meio de dinâmicas em grupo. Segundo Fabiano Lauser, membro do Coletivo, “nossos alarmes internos estão disparados e quase nunca estamos presentes por inteiro em nossas relações cotidianas, pensando nisso que trouxemos a iniciativa para Florianópolis”. O papel do Coletivo tem sido resgatar o contato e o amor em uma sociedade que já não pensa mais sobre essas questões. Cursos, oficinas, workshops, jogos cooperativos, dinâmicas de grupo, danças, exercícios de sensibilização e consciência corporal se espalharam pela Ilha de SC desde o surgimento do Coletivo, em 2014. A iniciativa do Entre Olhares foi inspirada no The Liberators Intenational, movimento internacional em favor da paz, que surgiu na Austrália há pouco mais de dois anos. A ideia se espalhou mundialmente e neste ano ocorreu em mais de 30 cidades ao mesmo tempo. 

Celso Braida, doutor em Filosofia da Linguagem e professor do departamento de Filosofia da UFSC, argumenta que “hoje, o olhar deixou de ser interativo, para se tornar um ver sem ser visto e ainda assim estar se comunicando. Na troca tradicional, o olhar do outro me faz ver como sou visto de imediato”. Em relação ao campo linguístico, o olhar é um elemento importante de comunicação. Um exemplo de utilização das comunicações não verbais está no uso da Língua Brasileira de Sinais. Ronice Quadros, professora no departamento de Letras/LIBRAS da UFSC e especialista em Psicolinguística, relata que “os olhos servem para compor os atos de fala em sinais. Os sinalizantes estabelecem o olhar com os seus interlocutores e retomam ele ao longo do discurso”. Ela fala que o olhar também é o elemento que desconecta as ligações comunicativas: “Os surdos quando não querem mais conversar desconectam o olhar e encerram a conversa.”

No ano passado, o canal do Youtube SoulPancake reuniu seis casais para testar uma teoria científica que propõe que um casal que se olha durante quatro minutos ininterruptos tem chances de se apaixonar ainda mais. Não se tratavam de desconhecidos que se encontraram em um evento qualquer, mas de pessoas que se faziam companhia por certo tempo. “Em 55 anos de casamento, nós nunca realmente olhamos nos olhos um do outro dessa forma”, comentou uma mulher ao fim dos quatro minutos do teste. “Quando eu olho para você de perto, percebo o quanto preciso de você”, respondeu o seu marido.

Paula, de olhos verdes, fala da sua experiência na tarde de sábado: “Pude perceber que tem um pedacinho do outro em cada um. Quando olhei nos seus olhos, percebi que havia algo de mim nele”. Ela diz, com lágrimas nos olhos e entre um sorriso: “senti uma esperança no mundo, penso que seria um lugar melhor se as pessoas conhecessem este amor”.

Imagem de Amostra do You Tube